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PAINEL DE IDEIAS

Os pressurosos de Machado

por PROF. DR. JOÃO PAULO VANI
Publicado em 24/07/2026 às 20:47Atualizado em 24/07/2026 às 21:14
Prof. Dr. João Paulo Vani (Divulgação)
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Entre as qualidades que fizeram de Machado de Assis um observador raro da alma humana está sua capacidade de reconhecer tipos sociais que não envelhecem. Seus personagens e suas crônicas não pertencem apenas ao Rio de Janeiro. Pertencem a qualquer tempo em que se repitam vícios, ilusões e contradições. Entre esses tipos, há um familiar aos nossos dias: o dos pressurosos.

Machado percebeu uma ansiedade que hoje parece dominar a vida pública. Os pressurosos são aqueles que chegam às conclusões antes de chegarem aos fatos. Não se detêm nas nuances, não admitem a possibilidade do equívoco, não suportam a demora necessária à compreensão. Sua preocupação principal não é entender, mas ocupar rapidamente o espaço da opinião. Valorizam menos a verdade do que a velocidade.

Se, num mundo em que a informação circulava a cavalo, por navio ou por trem, Machado já identificava essa pressa intelectual, imagine-se o que diria de uma época em que notícias e julgamentos atravessam continentes em segundos. Hoje, diante de qualquer acontecimento, há sempre alguém disposto a explicar tudo antes que se saiba quase nada.

Os pressurosos contemporâneos não são difíceis de encontrar. Habitam redes sociais, grupos de mensagens, mesas de bar, ambientes acadêmicos e até espaços de decisão. Leem só o título de uma reportagem e já conhecem a história inteira. Escutam metade de uma fala e já sabem o que o interlocutor pensa. Tomam contato com um fato complexo e logo o reduzem a uma explicação compatível com suas convicções.

A pressa produz uma ilusão curiosa. O indivíduo acredita demonstrar inteligência quando, na verdade, exibe apenas reflexos rápidos. Confunde agilidade com profundidade, resposta com compreensão, opinião com conhecimento. Em tempos de manifestação permanente, a demora passou a ser vista como fraqueza, quando muitas vezes é sinal de responsabilidade.

Essa lógica corrói a convivência pública, pois, se ninguém está disposto a escutar, todos disputam o direito de falar; se ninguém aceita a complexidade, qualquer discordância se transforma em suspeita e, se todos têm certeza antes de investigar, o diálogo deixa de ser instrumento de descoberta e passa a servir à confirmação das certezas.

Blaise Pascal observava que muitos males humanos nascem da incapacidade de permanecer algum tempo em silêncio, refletindo. Muitas decisões ruins não nascem da ignorância, mas da recusa em conceder ao pensamento o tempo de amadurecer. O pressuroso nem sempre erra por falta de informação; erra porque não suporta esperar.

A precipitação não afeta o raciocínio; afeta o julgamento. Quantas reputações são destruídas por conclusões apressadas? Quantas relações se desgastam porque alguém preferiu interpretar em vez de verificar?

Machado compreendeu que a pressa intelectual é também uma forma de vaidade. O pressuroso deseja parecer informado antes de estar informado. Deseja ocupar o lugar de quem sabe, ainda que não tenha percorrido o caminho do conhecimento. Seu compromisso não é com a verdade, mas com a aparência de lucidez.

A reflexão é lenta; a compreensão é lenta; e a sabedoria também é lenta. O século XXI, porém, alimenta a esperança de alcançar todas elas sem atravessar o tempo que exigem. Machado percebeu esse defeito há mais de cem anos. Nós apenas lhe demos melhores instrumentos.

PROF. DR. JOÃO PAULO VANI

Presidente da Academia Brasileira de Escritores (Abresc), é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados.