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Olhar 360

Os mestres e o tempo

Há algo de particularmente melancólico na partida daqueles que dedicaram uma vida inteira ao conhecimento

por Andrew Okamura Lima
Publicado em 05/08/2026 às 22:22Atualizado em 05/08/2026 às 22:29
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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O tempo para a “tribo dos historiadores” corre de forma diferente. Acostumamo-nos a pensar o passado em anos, décadas, séculos e milênios. Até o início do século passado, o ofício do historiador esteve principalmente vinculado às grandes datas e aos acontecimentos.

Contudo, no início do século XX, alguns historiadores começaram a sistematizar novos problemas, abordagens e métodos para Clio. No Brasil, autores como Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre contribuíram decisivamente para a renovação das interpretações sobre a formação histórica e social do país. Na Europa, intelectuais como Henri Berr contribuíram para reorientar a disciplina histórica, abrindo caminho para uma geração de grandes historiadores, entre eles Marc Bloch e Lucien Febvre.

Esse alargamento historiográfico permitiu que outros historiadores repensassem o processo histórico, tanto no Brasil quanto em outras partes do mundo. O historiador aprendeu a observar diferentes ritmos do tempo: os acontecimentos, as conjunturas e as estruturas de longa duração. Entretanto, como todos os seres humanos, estamos fadados à finitude material. Por isso, há algo de particularmente melancólico na partida daqueles que dedicaram uma vida inteira ao conhecimento.

Findado o primeiro semestre, os historiadores perderam diversos grandes mestres. Fernando Novais, Carlos Guilherme Mota e Edgar Morin são alguns dos notáveis nomes que nos deixaram neste ano. Ainda em junho, Carlo Ginzburg faleceu aos 87 anos em Bolonha.

Nascido em Turim, em 15 de abril de 1939, Carlo era filho do intelectual antifascista Leone Ginzburg e da consagrada escritora Natalia Ginzburg. Ao longo de sua carreira, tornou-se um dos historiadores mais influentes de sua geração, autor de obras como Os andarilhos do bem, O queijo e os vermes, História noturna: decifrando o sabá, Fios e rastros, Mitos, emblemas, sinais, entre diversas outras.

Ele deslocou o foco da história dos grandes acontecimentos para personagens comuns, até então anônimos, como o moleiro Menocchio, que em pleno século XVI desenvolveu uma impressionante cosmogonia segundo a qual tudo “era um caos, isto é, terra, ar, fogo e água juntos; e de todo aquele volume se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos”.

Ao lado de historiadores como Giovanni Levi, Ginzburg tornou-se um dos principais nomes da micro-história italiana, abordagem caracterizada pela redução da escala de observação para revelar, por meio de indivíduos e pequenas comunidades, dimensões mais amplas das sociedades do passado.

Entre seus escritos metodológicos mais influentes encontra-se Sinais: Raízes de um paradigma indiciário, publicado no final da década de 1970. No texto, o autor formulou uma questão fundamental: como produzir conhecimento sobre uma realidade que não podemos observar diretamente? Sua resposta estava nos indícios: vestígios aparentemente secundários, detalhes negligenciados, marcas, rastros ou sinais que permitem ao pesquisador reconstruir uma realidade mais ampla. Misturando arte, literatura, história e psicanálise, chegou à conclusão de que aquilo que parece marginal pode revelar uma realidade muito mais profunda.

Talvez o tempo seja mesmo diferente para os historiadores. Se a finitude da vida nos obriga a assistir à partida de grandes mestres, o conhecimento produzido por eles parece resistir ao próprio tempo. Permanecem os livros, as ideias, os métodos e, sobretudo, as perguntas deixadas às novas gerações de pesquisadores. Carlo Ginzburg foi um desses mestres. Ao voltar seus olhos para personagens aparentemente anônimos e para os pequenos vestígios deixados pelo passado, mostrou que a História não pertence somente aos reis, generais ou grandes acontecimentos. Ela também pode estar escondida nas palavras de um moleiro do século XVI, em um documento esquecido ou em um detalhe que, à primeira vista, parece insignificante. Os historiadores, afinal, também estão submetidos ao tempo. Contudo, alguns conseguem deixar sinais capazes de atravessar gerações.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo