Os adversários do Brasil
Nossos adversários na Copa nos fazem lembrar de alguns de nossos desafios internos

Na Copa do Mundo, estamos no grupo C com Marrocos, Haiti e Escócia.
Se você já conheceu uma pessoa com ideias que extrapolaram a realidade e pensou que ela estava “pra lá de Marraquexe”, você já pensou no Marrocos. Marraquexe - citada na música “Qualquer Coisa” de Caetano Veloso - é uma importante cidade do Marrocos e foi rota turística hippie nos anos 60.
O Marrocos, porém, é muito mais que Marraquexe. O país foi o maior exportador africano para o Brasil em 2025, principalmente de fertilizantes e fosfatos, elementos importantes para a produtividade da agricultura brasileira. O Marrocos foi o primeiro país da África a reconhecer a independência do Brasil.
Também foi Caetano que nos cantou que “o Haiti é aqui” e que “o Haiti não é aqui”, na música “Haiti”. O Haiti foi palco de uma guerra pela abolição da escravidão, liderada pelos escravizados. Podemos fazer coro com Caetano dizendo que o Haiti é aqui, porque os elementos de sofrimento, injustiça e opressão que fizeram a revolução lá também estavam presentes aqui. O Haiti, entretanto, não é aqui porque não tivemos uma revolução como lá. Aliás, muito pouco sabemos sobre ela.
A Escócia faz parte do Reino Unido, junto com a Inglaterra, o País de Gales e a Irlanda do Norte. Todos esses países são independentes; respondem, todavia, ao governo do Reino Unido em Londres. Por isso, a diplomacia formal nas nossas relações com a Escócia é conduzida pela embaixada britânica.
Já vivemos relações conduzidas pela Inglaterra. Quando alguém faz alguma coisa com o único objetivo de mostrar que está fazendo, mesmo com resultados reais inexpressivos, usamos a expressão de que ela faz só “para inglês ver”. Essa expressão vem do período da escravidão, quando a Inglaterra - por motivos diversos - começou a proibir o regime escravocrata e a interferir nos países que ainda o mantinham. O Brasil, nesse período, criou uma série de leis e ações que eram muito mais para “inglês ver” do que para efetivamente acabar com a escravidão por aqui.
Nossos adversários na Copa nos fazem lembrar de alguns de nossos desafios internos. O Haiti nos lembra a necessidade de conhecimento e valorização de eventos vitoriosos e de importantes nomes africanos. A Escócia, país “irmão” da Inglaterra, nos traz à memória o desafio do real combate à desigualdade social e à violência contra as pessoas negras e indígenas, ecos ainda presentes do regime escravocrata. E o Marrocos, parceiro na construção da segurança alimentar, nos lembra a necessidade da eliminação da vergonhosa fome que ainda acomete parte da nossa população e também, em seu reconhecimento de nossa independência, nos lembra que lutar pela nossa soberania é luta atual e cotidiana.
Vencer nossos adversários na Copa será bom. As comemorações fazem bem ao coração e à economia. Quiçá os bons motores da alegria fortaleçam nossa consciência também para a luta pela derrota dos adversários internos, aqueles que não colaboram para a superação de nossos desafios. Que venha o Hexa!
Monica Abrantes Galindo
É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo