Violências, mortes e vidas
Feminicídio pode ser o final cabal da vida de uma mulher ou pode ser um outro tipo de morte, um processo lento no qual a mulher corre o risco de deixar de amar a si mesma

Um aspecto importante da Lei Maria da Penha foi a tipificação da violência doméstica: física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e vicária. Essa tipificação, para além de uma orientação legal importante, funciona também como formação do olhar, da percepção do que é violento, do que causa dano.
Participei da banca de defesa de um belo trabalho de mestrado, no qual a mestranda - hoje já mestre, Pamella Araujo Santos - discutiu aspectos da vida de três mulheres negras e suas carreiras na música clássica e erudita: duas delas cantoras líricas e uma instrumentista, contrabaixista. Cada uma delas relata o percurso e suas diferentes lutas para estar em um lugar que supostamente ou habitualmente não é o lugar a elas destinado como mulheres negras: o da música clássica.
A mais jovem, hoje morando na Suíça, teve que ouvir que era tímida demais. Para a instrumentista, não faltava alguém para lhe dizer que ela não era boa o suficiente.
A mais velha das três, hoje também professora de canto, ouviu de um maestro que ela era sua única dúvida e havia sido sua maior surpresa, diante de uma apresentação muito bem-sucedida de uma ópera em que ela fazia o papel de uma aristocrática europeia.
Em comum, além de uma carreira hoje consolidada, elas têm a certeza de que trilham caminhos que foram abertos por mulheres que vieram antes delas e que hoje elas abrem caminhos para as que virão depois.
Além disso, elas têm uma história de sentimentos de inadequação que tiveram que ser - e foram - superados. Em cada esquina, havia - e em alguns aspectos ainda há - um encontro com a possibilidade de morte de um sonho, de um desejo, do prazer de viver da música.
No livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, Kehinde, narradora e principal personagem, conta-nos sobre uma mulher - de quem Kehinde não lembrava o nome, mas jamais esqueceu a história de sofrimento - que no rosto tinha no “fundo de duas covas, os olhos de alguém que parecia ter morrido sem saber”.
Lembro-me novamente de um quadrinho de que meu pai gostava muito, que dizia que a pessoa não morre quando deixa de viver, mas quando deixa de amar. Nesse sentido, feminicídio pode ser o final cabal da vida de uma mulher ou pode ser um outro tipo de morte, um processo lento no qual a mulher corre o risco de deixar de amar a si mesma, seus desejos, seus sonhos, sua vida, mesmo ainda estando nela. Corre o risco de viver morta, mesmo sem saber.
No mês em que se comemora a sanção da Lei Maria da Penha e o combate à violência doméstica, é importante lembrar que a esperança de superação e a possibilidade de viver são sempre coletivas, para todos nós, tanto homens como mulheres.
Se o ato feminicida é individual, sua construção é, entretanto, proveniente de outras construções sociais, das formas como aprendemos a nos relacionar e a nos olhar. Se o processo feminicida é social, também a possibilidade de ressurreição feminina é sempre coletiva. Não só no Agosto Lilás é tempo de celebrar as vidas e combater as mortes. Todas.
Monica Abrantes Galindo
É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo