Olhar 360

Uma Páscoa diferente

por Regina Chueire
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Regina Chueire (Regina Chueire)
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Eles têm 5 anos de idade. Mohamed chega primeiro, curioso, olhando Jerusalém como quem tenta decidir se aquele lugar é mais antigo… ou mais interessante para brincar.

Davi vem logo depois, com uma tradição milenar — embora, naquele momento, esteja mais interessado em correr do que em qualquer simbolismo.

Jesus aparece em seguida, tranquilo, observando tudo com uma serenidade que não combina com a energia de três crianças prestes a transformar qualquer cenário em brincadeira.

Vieram para celebrar. Mohamed, o Ramadã. Davi, o Pessach. Jesus, a Páscoa. Três histórias profundas. Três caminhos que, ali, se encontram. No papel, um encontro grandioso.

Na prática, três meninos tentando decidir o que fazer primeiro. Jerusalém, no entanto, não está em clima de festa.

Alguns lugares estão fechados. Adultos falam mais baixo, como se tentassem proteger as crianças de algo que nem eles conseguem explicar. “Por que está fechado?”, pergunta Davi.

A resposta não vem. Porque traduzir conflitos antigos e tensões atuais para quem ainda acredita que o mundo faz sentido exige mais do que palavras.

Eles não insistem. Seguem juntos. É quando chega Benedito. Camisa da seleção, bola de futebol debaixo do braço e alheio à complexidade do mundo adulto. “Tem jogo?”

E tudo se organiza. Sem reuniões, sem acordos, sem versões conflitantes. A bola rola. Mohamed corre. Davi tenta organizar. Jesus participa com tranquilidade. Benedito comemora como final de campeonato.

Por alguns minutos, Jerusalém deixa de ser disputa e vira infância. Não há território. Não há divisão. Só o jogo. E funciona. Reclamam, esquecem, recomeçam.

Enquanto isso, o mundo adulto segue tentando resolver o que parece não ter solução. Eles resolvem em minutos — sem esforço. Talvez não por saberem mais, mas por ainda não terem desaprendido o essencial.

Fé, liberdade e recomeço, ali, cabem em algo simples. Um jogo. Uma risada.

Benedito faz um gol. Comemora. Os outros reclamam. Depois riem. E seguem.

Talvez a paz nunca tenha sido tão complexa. Talvez tenha sido esquecida.

Alô Trump. Alô Netanyahu. Alô aiatolás. Já passou da hora de parar de transformar diferenças em trincheiras. As crianças já mostraram o caminho — façam, ao menos, o mínimo: não atrapalhem.

Regina Chueire

Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.