Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
Olhar 360

Um País Chamado Paulista

Caminhando por ali, a impressão é de passear por um grande centro cultural a céu aberto. Os museus e espaços de arte convidam à reflexão

por Regina Chueire
Publicado em 03/08/2026 às 21:54Atualizado em 03/08/2026 às 22:10
Regina Chueire (Regina Chueire)
Galeria
Regina Chueire (Regina Chueire)
Ouvir matéria

Há lugares que são ruas. A Avenida Paulista, aos domingos, é um país.

Basta fechar o trânsito para abrir espaço ao que temos de melhor: gente. Gente de toda idade, cor, sotaque, profissão, crença e estilo. Um desfile espontâneo da diversidade brasileira, sem mestre de cerimônias e sem roteiro.

Caminhando por ali, a impressão é de passear por um grande centro cultural a céu aberto. Os museus e espaços de arte convidam à reflexão. Nas calçadas, porém, a exposição é outra: artistas de rua transformam cimento em palco. Violinos dividem espaço com tambores. Estátuas vivas competem com mágicos, enquanto um pintor termina sua tela sob o olhar curioso de quem apenas saiu para tomar um café.

Mais adiante, um grupo dança K-pop com precisão quase cirúrgica. Logo ao lado, o funk toma conta da esquina sem pedir licença. Alguns metros depois, uma roda de samba faz desconhecidos cantarem como velhos amigos. A trilha sonora muda a cada vinte passos, mas ninguém parece se incomodar. Pelo contrário, o improviso é justamente a harmonia.

E que bela surpresa observar também a convivência das diferentes crenças. Umbandistas, budistas, católicos, evangélicos e pessoas sem religião circulam pelo mesmo espaço com naturalidade. Cada um carregando sua fé, ou sua ausência dela, sem que isso se transforme em motivo de conflito. Apenas respeito. Uma palavra tão simples e, às vezes, tão difícil de encontrar.

Confesso que, por alguns instantes, tive a impressão de que as redes sociais haviam sido desligadas. Ninguém parecia interessado em provar que estava certo. As pessoas apenas viviam o domingo. Conversavam. Sorriam. Dançavam. Passeavam com os filhos, com os cães, com os avós. E até os corredores, sempre apressados, pareciam ter aceitado reduzir o ritmo para não atropelar a poesia da tarde.

Talvez alguém diga que essa convivência dure apenas algumas horas. Pode ser. Mas quem decretou que a beleza precisa ser permanente para ser verdadeira? Um pôr do sol também dura pouco e nem por isso deixa de nos emocionar.

Na Paulista de domingo, descobri que a convivência também pode ser uma forma de arte.

Voltei para casa com a agradável sensação de ter encontrado o Brasil cordial de Sérgio Buarque de Holanda. Não aquele personagem idealizado dos livros de História, mas um Brasil feito de pessoas comuns exercitando, ainda que por uma tarde ensolarada, a difícil arte de conviver.

Valeu a caminhada. Além dos passos registrados no relógio, trouxe comigo algo que aplicativo nenhum consegue medir: uma esperança discreta. A de que o Brasil continua existindo, inteiro, sempre que pessoas diferentes dividem o mesmo espaço sem abrir mão de quem são e, ainda assim, escolhem o respeito.

Se foi apenas por um domingo, pouco importa. Há domingos que conseguem devolver a esperança de uma semana inteira.

Regina Chueire

Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme