Triste circo eleitoral
Em ano eleitoral, índices viram ficção publicitária. Essa manipulação só funciona porque encontra uma população incapaz de raciocinar de modo independente

Começou oficialmente mais um período eleitoral no Brasil. De uma hora para outra, as redes sociais e as telas de TV são inundadas por sorrisos ensaiados, abraços cenográficos e promessas que não resistem a dois minutos de matemática básica. A reação imediata de qualquer cidadão lúcido é a repulsa. Afinal, virou redundante dizer que a classe política brasileira é vocacionada para o privilégio, a incompetência e o desvio ético (e nem se fale ainda da crescente participação do crime organizado nas esferas governamentais).
E é justamente aí que habita uma contradição bizarra em nosso país. Ao mesmo tempo em que o brasileiro odeia o político, devota uma fé quase religiosa à abstração chamada Estado. Diante da inflação que corrói o salário e de serviços públicos caindo aos pedaços, a reação automática não é pedir menos amarras, mas exigir que o governo "faça alguma coisa". Ignora-se o óbvio: a máquina estatal não tem vida própria; ela é operada exatamente por esses políticos que o eleitor diz desprezar.
Essa casta governante, intocável e alimentada por um poder hipertrofiado, atua como um estamento absolutista moderno. Munida de canetadas autoritárias e privilégios nababescos, a classe política enxerga o cidadão não como o titular do poder, mas como mero súdito a ser gerido e taxado.
Os governantes viciaram-se na prerrogativa de intervir em cada detalhe da vida alheia, ditando o que se pode produzir, negociar ou dizer, enquanto se encastelam em sigilos declarados, em uma blindagem jurídica e financeira inacessível ao mortal comum.
O resultado dessa hegemonia é trágico. A pobreza crônica e as dificuldades do cotidiano não são fatalidades do destino, culpa do capitalismo, da exploração por particulares, mas entregas diretas do próprio poder público. O cidadão trabalha meses apenas para pagar uma carga tributária confiscatória, que serve para sustentar o luxo dos gabinetes. Enquanto isso, o cipoal regulatório sufoca quem tenta empreender e a gastança desmedida desvaloriza a moeda no bolso do mais pobre.
Para empurrar essa conta e se manter no poder, a classe política aperfeiçoou ainda a maquiagem estatística. Em ano eleitoral, índices viram ficção publicitária. Essa manipulação só funciona porque encontra uma população incapaz de raciocinar de modo independente e desarmada na base: a falência da nossa educação destrói a capacidade de raciocínio crítico e deixa o eleitor incapaz de auditar os números oficiais, aceitando o marketing de palanque como verdade (sem contar que em nosso país, questionar o que é “vendido por oficial” pelas autoridades pode ser considerado “ato antidemocrático”).
Dito isso, precisamos compreender que a solução para os nossos graves problemas não virá da escolha de um novo messias, de um novo pai dos pobres, de um novo líder, mas sim da redução drástica do tamanho do Estado e de seus poderes. É urgente degolar a carga tributária e encolher a burocracia, retirando dos burocratas o poder de espoliar a riqueza nacional e de seu povo. A prosperidade só floresce quando o dinheiro fica no bolso de quem produz/trabalha e a liberdade de escolha retorna às pessoas, e não aos cofres governamentais.
Esperar que o Estado e seus políticos resolvam as mazelas que eles próprios criam é uma ingenuidade cara. O circo das urnas não entrega milagres, apenas redistribui quem segura a caneta e a chave do cofre. Enquanto alimentarmos a ilusão de que a salvação virá da própria fonte da espoliação, continuaremos trocando de gerentes sem jamais experimentar a verdadeira liberdade.
Marco Feitosa
Advogado e coordenador do Estado de São Paulo do Movimento Livres