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Sobre virtude e livre-arbítrio

Sempre me causou perplexidade as autodefinições de “direita-conservadora” e “esquerda-progressista”, porque não me parece virtuoso conservar maus hábitos ou maus sistemas

por Azor Lopes da Silva Júnior
Publicado em 18/07/2026 às 21:45
Azor Lopes Jr. (Azor Lopes Jr.)
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Azor Lopes Jr. (Azor Lopes Jr.)
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Como compreender a liberdade sem aceitar o livre-arbítrio? Como defender a igualdade, sem se desvencilhar do preconceito? Como buscar o bem-comum excluindo uns aos outros? Como construir consensos sem o diálogo?

No clássico “Ética a Nicômaco”, Aristóteles traz a lição extraída de “Os Trabalhos e os Dias”, em que o poeta Hesíodo aponta para a sabedoria: “Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas; bom o que escuta os conselhos dos homens judiciosos”.

Entre as decisões que cada um de nós toma no dia a dia, há desafios e riscos, há uma motivação boa ou má, e em cada uma delas seguimos as nossas balizas da consciência (não a dos outros) e, por cada uma delas pagaremos um preço, justo ou injusto.

Aristóteles diz que há aqueles que amam a vida dos gozos, definindo seu conceito próprio de bem e de felicidade a partir do prazer que cada uma dessas decisões lhes haverá de proporcionar; nesse caso, o filósofo foi duro ao chamar tal estilo como de uma vida bestial. Para ele, outros identificam a felicidade com a honra, somente presente na vida política.

Ao final, tudo sugere que não é fácil ser bom, senão quando se busca um meio-termo entre dois vícios (o excesso e a deficiência), ciente que a alma tem uma parte racional e outra parte privada de razão (as paixões, por compulsão ou ignorância), mas, por vezes, a maneira mais fácil de atingir o meio-termo seria nos inclinarmos para o excesso e outras vezes para a deficiência.

Disso decorre que toda escolha seria o que Aristóteles chamou “um desejo deliberado de coisas que estão ao nosso alcance” e, prosseguindo: “Logo, depende de nós praticar atos nobres ou vis, e se é isso que se entende por ser bom ou mau, então depende de nós sermos virtuosos ou viciosos”.

Sempre me causou perplexidade as autodefinições de “direita-conservadora” e “esquerda-progressista”, porque não me parece virtuoso conservar maus hábitos ou maus sistemas, como também fechar os olhos às mudanças de paradigmas, quando na humanidade, diferentemente das colmeias, os indivíduos não agem por impulsos instintivos preordenados e imutáveis, mas por uma constante revolução.

Ainda assim, parece ser inato ao ser humano a noção daquilo que seja o bem e o mal; ora, se a política parece ser a excelência da reflexão e ação humanas, também não é de se esperar que ela seja expressão única de virtudes, mas dos vícios inerentes à condição humana. Igualmente, se a ação política só se realiza por agremiações de seres humanos, não há como se esperar que qualquer uma delas possa ser o paraíso ou o inferno na Terra.

Daí porque, num tabuleiro dividido entre casas e pedras brancas e pretas, os adversários não são necessariamente inimigos, não há uma peleja entre o bem e o mal, senão visões distintas de meios dirigidos ao mesmo fim. Afinal, para Aristóteles, “o homem dotado de sabedoria prática é também um homem de bom caráter”.

Num recente pronunciamento público, fiz questão de dizer que a ruptura com os preconceitos é o difícil, mas inevitável, primeiro passo para o diálogo e, só por um diálogo onde a ideologia ceda maior espaço à razão, é que se poderá atingir o bem de todos: maiorias e minorias; conservadores e progressistas. Por isso, conservar virtudes e, ao mesmo tempo, manter o desejo de progresso, não nos faz de direita ou esquerda, mas sábios num consenso onde imperam o respeito ao livre arbítrio e o desapego ao poder e à vil ganância.

O risco em qualquer tabuleiro é não ser o peão dado em sacrifício para a defesa e glória do Rei, e tampouco ser aquele que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia, para ser o que Aristóteles chamou de “uma criatura inútil”.

Azor Lopes da Silva Júnior
Advogado, professor de direito e coronel da Polícia Militar