Rio Preto não é o túmulo do samba
Parecia improvável que um ritmo nascido da mistura encontrasse abrigo numa cidade conhecida pela clareza de seus objetivos e pela disciplina da rotina

Durante muito tempo, gostou-se de imaginar que São José do Rio Preto seria imune ao samba. Não por hostilidade, mas por identidade. Cidade de sol firme, vocação sertaneja e uma confiança quase moral na utilidade das coisas.
Aqui, a trilha sonora sempre pareceu mais compatível com estradas de terra, caminhonetes empoeiradas, chapeludos contemplando horizontes e amores que ficaram para trás junto com alguma cerca mal fechada.
O samba, com sua vocação para o desvio e o improviso, pareceria deslocado. Em tese. Parecia improvável que um ritmo nascido da mistura encontrasse abrigo numa cidade conhecida pela clareza de seus objetivos e pela disciplina da rotina.
Mas fevereiro chega e as teses perdem autoridade. Surgem blocos. Não como política pública, nem como produto cultural embalado, mas como acontecimentos.
O que era fluxo vira permanência. O que era pressa vira convivência. O que era apenas deslocamento vira encontro.
Pessoas que passaram o ano exercendo controle rigoroso sobre horários e responsabilidades aceitam, de repente, a inutilidade de seguir um tambor. E seguem. Ao seguir, descobrem algo que não sabiam estar procurando.
Entre esses blocos, o Nada Igual ocupa um lugar especial. Há cinco anos, ele sai às ruas organizado pelo Instituto Lucy Montoro, em parceria com o Instituto dos Cegos, a Apae e o Renascer e Pro-7.
Mais do que um desfile, é uma afirmação pública de pertencimento. Pessoas com e sem deficiência, profissionais, pacientes, familiares e curiosos compartilham o mesmo espaço sem hierarquia visível.
O critério é simples e radical: estar presente. O Nada Igual não é espetáculo para ser assistido. É experiência para ser vivida. É um território temporário onde limitações deixam de definir fronteiras e passam a definir possibilidades.
Ao contrário do velho modelo de pão e circo, não serve para distrair ninguém, mas para ampliar a realidade. Revela que a cidade é maior do que sua rotina, mais generosa do que sua fama e mais aberta ao encontro do que supõe sua própria pressa.
Revela também que inclusão não é conceito abstrato, mas gesto concreto que ocupa espaço e produz memória. Rio Preto continua sendo sertaneja, e isso não mudou. A viola segue intacta, os amores continuam sendo perdidos com dignidade e as caminhonetes permanecem como símbolos afetivos.
Mas agora convivem com algo novo. O tambor não substituiu nada. Apenas encontrou espaço. Talvez o erro nunca tenha sido subestimar o samba, mas subestimar a cidade.
Porque uma cidade não é feita apenas do que repete, mas do que aceita experimentar. Cinco anos depois, o Nada Igual prova que o samba não precisava nascer aqui para florescer. Bastava encontrar quem abrisse caminho.
E a população PCD abriu. Ao abrir, abriu mais do que uma avenida. Abriu uma possibilidade que agora pertence definitivamente à cidade.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme