Quaresma de corpo e alma
A oração e a meditação cristãs funcionam como treino estruturado da atenção. Em um mundo de notificações constantes, silenciar tornou-se quase um ato revolucionário

Para nós, da Igreja Católica, a Quaresma é um tempo de revisão interior. São quarenta dias que antecedem a Páscoa e recordam o deserto de Cristo, mas que, na prática, falam muito da nossa própria travessia.
Como médica fisiatra e católica, aprendi a enxergar esse período como um processo de restauração integral. Não apenas espiritual, mas humano, concreto e transformador.
Na reabilitação, nenhum ganho funcional acontece por acaso. É preciso método, repetição e propósito. A Quaresma segue essa mesma lógica.
O jejum, por exemplo, não é simples restrição alimentar. Ele treina a capacidade de dizer “não” aos impulsos imediatos. Fortalece a vontade. Se músculos precisam de resistência progressiva, o caráter também precisa. E confesso: às vezes é mais difícil abrir mão do chocolate do que prescrever exercício para o paciente. A disciplina começa no detalhe.
A oração e a meditação cristãs funcionam como treino estruturado da atenção. Em um mundo de notificações constantes, silenciar tornou-se quase um ato revolucionário.
Rezar o terço ou dedicar minutos diários à contemplação reorganiza o pensamento e reduz a ansiedade. Pesquisas em neurociência já demonstram benefícios das práticas contemplativas na regulação do estresse.
Mente e corpo não vivem separados. Aquilo que acalma o espírito também repercute na fisiologia. As procissões da Semana Santa mostram que a fé não é vivida apenas no silêncio individual.
Caminhar juntos, cantar, acompanhar o canto de Verônica transforma ruas em espaço de partilha. Há resistência física, coordenação, ritmo respiratório.
O gesto de ajoelhar-se, frequente na liturgia, mobiliza articulações e exige controle postural. Do ponto de vista biomecânico, é quase um agachamento devocional.
Do ponto de vista espiritual, é humildade em movimento. Também não existe restauração verdadeira sem perdão. No consultório, é comum perceber como mágoas prolongadas aumentam tensões e perpetuam dores.
A reconciliação reduz cargas emocionais que impactam diretamente o bem-estar. Perdoar não significa minimizar a ferida, mas decidir que ela não governará o futuro. É libertar energia para reconstruir.
Em 2026, a Campanha da Fraternidade, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reforça que conversão pessoal e responsabilidade social caminham juntas. A espiritualidade quaresmal não se encerra no interior da igreja.
Ela se traduz em compromisso concreto com a dignidade humana e com a construção de uma sociedade mais justa. Quando observamos os efeitos do jejum sobre o autocontrole, da oração sobre a organização mental, do perdão sobre o estresse e da vida comunitária sobre a saúde relacional, percebemos que ciência e fé não são opostas.
A ciência descreve mecanismos; a fé oferece sentido. Uma explica processos; a outra ilumina propósitos. Ao final da Quaresma, celebramos mais que um rito. Celebramos a possibilidade real de recomeço.
orpo e alma se realinham. A disciplina amadurece em liberdade. O silêncio floresce em esperança.
E, como em todo verdadeiro processo de reabilitação, não voltamos iguais. Tornamo-nos mais conscientes, mais compassivos e mais inteiros.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme