Olhar 360

Quando o topo apodrece, o mau cheiro desce

O que acontece quando o que vem do topo da pirâmide é escândalo, corrupção?

por Fernando Fukassawa
Publicado em 10/03/2026 às 00:44Atualizado em 10/03/2026 às 09:33
Fernando Fukassawa (DIARIO)
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Dizem que “o exemplo vem de cima”, sugerindo que a retidão de uma estrutura depende da conduta de seus líderes, sobretudo dos detentores máximos dos poderes da República em todos os setores e níveis. Mas o que acontece quando o que vem do topo da pirâmide é escândalo, corrupção?

O país assiste, quase sem intervalo, a novos casos de desvio de recursos, favorecimentos obscuros, contratos suspeitos e impunidade seletiva. A sucessão é tão frequente que o espanto já não dura 24 horas. O problema não é apenas jurídico — é moral. Deve-se evitar que o estado de deterioração se transforme em estado de putrefação. Quando o topo apodrece, o mau cheiro desce.

A autoridade pode vir do cargo, mas o exemplo nasce do caráter. A conduta é a bússola do homem. Quando o poder é usado para caminhos tortuosos e interesses próprios, a referência torna-se uma justificativa para a falha. O cidadão comum começa a fazer uma conta perigosa: se quem manda não respeita as regras, por que eu deveria respeitar?

Trata-se de reconhecer um efeito em cadeia. A corrupção sistêmica não normaliza apenas grandes crimes; ela corrói o senso de justiça coletiva. Pagar impostos vira ingenuidade. Cumprir normas vira desvantagem competitiva. Participar da vida pública parece perda de tempo.

Instala-se a fadiga ética e o ceticismo cívico. Não é preguiça — é exaustão. O eleitor vota...e nada muda; nada muda...e vota. O contribuinte paga e não vê retorno. O servidor honesto trabalha e é tratado como exceção. Aos poucos, a descrença substitui a indignação. E esse é o momento mais perigoso de uma democracia: quando o escândalo deixa de revoltar e passa apenas a confirmar expectativas.

Quando as regras não valem para todos, cria-se uma sociedade em que a esperteza compensa e a integridade custa caro. O honesto torna-se o “ingênuo” da história. E nenhum país prospera quando fazer o certo vira desvantagem. É nesse ponto que o exemplo deixa de descer e precisa começar a subir.

Se o topo falha, resta a base. A integridade sobe escada? Trabalhadores, profissionais, empreendedores, servidores, cidadãos comuns — é aí que ainda pulsa uma ética cotidiana que impede o colapso total. São pessoas que cumprem deveres mesmo quando ninguém fiscaliza. Que recusam atalhos mesmo quando seriam mais lucrativos. Que não desviam mesmo quando poderiam.

Mas não romantizemos: essa resistência tem custo. Sistemas marcados por corrupção tendem a triturar o íntegro. Ele é isolado, desacreditado, tratado como obstáculo. Quando a honestidade vira ato de coragem individual, algo básico já se perdeu.

Cresce então o suspiro por um “salvador”. A ideia da “ditadura honesta” reaparece como atalho sedutor: seria mais fácil confiar tudo a um líder supostamente virtuoso do que depender da vigilância de milhões. Mais fácil educar bem uma só pessoa em vez da nação inteira. Há, porém, uma variável implacável: a eficiência. Sistemas que premiam incompetentes fiéis e punem competentes íntegros tornam-se disfuncionais.

Muitas estruturas caem, não porque foram derrubadas pela base. Caem porque apodreceram por dentro. A pergunta que fica é incômoda: o que sustenta um país quando o topo falha? Sustenta-o a soma silenciosa de milhões de decisões individuais corretas. Sustenta-o o profissional que não frauda, o servidor que não aceita propina, o empresário que não compra favores, o eleitor que não vende voto.

O exemplo que vem de baixo, ainda que de tempos a tempos, como o fluxo cíclico de um “gêiser”, pode preservar algo essencial: a possibilidade de reconstrução, por um pacto civilizatório entre iguais. É a última linha de defesa de uma civilização. Quando o topo apodrece, a base não pode se permitir apodrecer junto.

Afinal, não são as raízes com o seu tronco - e não os galhos mais altos -, que garantem a sobrevivência da árvore em tempos de tempestade?

Fernando Fukassawa

Advogado, professor de direito e promotor de Justiça aposentado