Quando a arte denuncia a guerra
Picasso pintou Guernica em 1937, como resposta ao bombardeio da pequena cidade basca durante a Guerra Civil Espanhola

Obra-prima de Picasso, exposta em Madri, lembra que avançamos tecnologicamente, mas tropeçamos eticamente diante da violência.
Visitar Madri, mesmo a trabalho, e não ir ao Museu Reina Sofía é não saber o que está perdendo. Lá está uma das maiores obras da arte mundial: Guernica, de Pablo Picasso.
Diante dela, tive a sensação imediata de que não se trata apenas de um quadro, mas de uma experiência. Um confronto direto com a dor, a violência e a condição humana.
Picasso pintou Guernica em 1937, como resposta ao bombardeio da pequena cidade basca durante a Guerra Civil Espanhola. Civis morreram, casas foram destruídas e uma comunidade inteira foi atravessada pela brutalidade da guerra.
Ao transformar essa tragédia em imagem, o artista criou uma das mais contundentes denúncias visuais da violência moderna. Quase noventa anos depois, a pergunta permanece: por que essa obra ainda nos interpela com tanta força?
Talvez porque pouca coisa tenha mudado em sua essência. Apesar dos avanços tecnológicos, a lógica da violência continua a mesma.
Na pintura, não há soldados nem bandeiras. Há mães desesperadas, corpos dilacerados e rostos em grito. Picasso escolhe olhar para quem sofre. É exatamente isso que muitas vezes evitamos fazer quando acompanhamos, à distância, conflitos armados, ataques urbanos e crises humanitárias que atingem sobretudo populações indefesas.
Hannah Arendt dizia que a violência surge quando o poder político fracassa. Basta acompanhar o noticiário para perceber o quanto essa reflexão permanece atual.
Guerras prolongadas, deslocamentos forçados e instabilidade global revelam nossa dificuldade coletiva em resolver conflitos sem recorrer à destruição. Vivemos, como descreveu Zygmunt Bauman, em uma modernidade líquida, na qual vínculos se enfraquecem e vidas passam a ser tratadas como números.
A própria forma de Guernica expressa esse colapso. Corpos fragmentados e perspectivas quebradas traduzem a ruptura da experiência humana.
Walter Benjamin já alertava que a guerra moderna produz uma pobreza de experiência. Hoje, essa fragmentação vai além do corpo: aparece na polarização política, na ansiedade coletiva e na sensação difusa de um mundo fora de controle.
Também mudou nossa relação com as imagens. Guernica é silenciosa, mas parece gritar. Ela exige pausa e atenção. Em contraste, somos bombardeados diariamente por cenas de sofrimento nas redes sociais.
Susan Sontag advertiu que o excesso dessas imagens pode nos anestesiar. A dor alheia corre o risco de virar espetáculo.
Guernica não oferece respostas fáceis. Ela funciona como memória e advertência. Sua permanência revela um paradoxo inquietante: avançamos tecnicamente, mas seguimos repetindo padrões de desumanização. Enquanto isso acontecer, a obra de Picasso continuará sendo um espelho do nosso tempo.
Talvez essa seja justamente uma das funções da arte: nos obrigar a olhar, mesmo quando preferimos não olhar.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme