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Olhar 360

Precisamos salvar o Supremo, inclusive dele mesmo

Um tribunal que age por interesse próprio, que não impõe regras claras de conduta para si mesmo e ainda precisa lidar com uma campanha deliberada de deslegitimação vai ter dificuldade crescente de se sustentar como árbitro

por Beto Braga
Publicado há 58 minutosAtualizado há 57 minutos
Beto Braga (Beto Braga)
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Estamos em ano pré-eleitoral e o Supremo virou moeda de campanha. Candidatos se dividem entre bater no Judiciário e acariciá-lo, conforme o vento da conveniência. Mas antes de entrar no mérito de quem ataca e quem defende, vale registrar o que torna essa disputa cínica: o próprio Supremo Tribunal Federal e seus tropeços.

Um Judiciário que protege seus membros com a mesma ferocidade corporativista do Legislativo, que naturaliza supersalários e penduricalhos incompatíveis com qualquer senso de proporcionalidade, não pode estranhar que vire alvo.

A diferença é que o parlamentar responde nas urnas. O ministro, não. Isso torna o problema mais grave, não menos. A semana que passou deixou isso escancarado. Na quarta-feira, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF por 42 votos a 34. Foi a primeira rejeição de uma indicação presidencial ao Supremo em 132 anos, desde 1894, no governo Floriano Peixoto.

No dia seguinte, o Congresso derrubou o veto de Lula ao PL da Dosimetria, que pode beneficiar retroativamente condenados pelos atos de 8 de janeiro. Duas derrotas em dois dias. O governo saiu cambaleando.

Mas a rejeição de Messias é mais tortuosa do que pareceu. Não foi vitória da oposição. Foi uma confluência improvável de interesses: parte da base aliada do governo, senadores com vínculos no caso do Banco Master, a articulação do presidente do Senado Davi Alcolumbre e, segundo relatos amplamente circulados na imprensa, a atuação nos bastidores do ministro Alexandre de Moraes.

Flávio Bolsonaro saiu alardeando vitória do bolsonarismo. Mas o que se passou não tem nome de campo político. Tem nome de jogo interno. Por anos, críticos repetiram que o STF era braço do Executivo. O episódio Messias mostrou o contrário. O presidente indicou um nome. O Senado rejeitou. E parte da articulação contra a indicação veio de dentro do próprio Supremo, de ministros que não queriam ver o equilíbrio interno da Corte alterado.

O STF não age como braço de ninguém. Age por interesses próprios, negociados caso a caso, nos bastidores. Deslegitimar uma corte constitucional é mais fácil do que parece. Basta atacar publicamente, questionar decisões de forma sistemática, pressionar nomeações.

Quando a opinião pública já não confia no tribunal, as mudanças legais para subordiná-lo ao poder político ficam muito mais fáceis de aprovar. Foi assim na Hungria a partir de 2010, na Turquia depois de 2016, na Venezuela. O roteiro é velho. E está sendo usado aqui.

Mas seria desonesto focar só no ataque externo. O STF também criou problemas que não foram fabricados pelos adversários. O mais difícil de engolir é o da execução provisória da pena. Em 2016, o Tribunal admitiu a prisão após condenação em segunda instância. Em 2019, reverteu. Os dois lados têm respaldo jurídico. O problema não é qual posição está certa. É que a virada aconteceu em intervalo curto, em contexto politicamente explosivo.

A sequência alimentou a leitura de que a Corte decide por conveniência. Essa leitura, uma vez instalada, é difícil de apagar. Some a isso decisões monocráticas em temas de alto impacto, ausência de código de ética claro sobre conflitos de interesse e respostas improvisadas quando surgem questionamentos sobre vínculos de ministros. A Corte responde caso a caso. O que parece improvisação porque provavelmente é.

A confiança numa instituição não é decreto. Ela se constrói devagar e some rápido. Um tribunal que age por interesse próprio, que não impõe regras claras de conduta para si mesmo e ainda precisa lidar com uma campanha deliberada de deslegitimação vai ter dificuldade crescente de se sustentar como árbitro. E sem essa função, o STF pode sobreviver formalmente. Mas perde o que justifica sua existência: ser o árbitro final. O árbitro que ninguém questiona porque ninguém precisa questionar.

Beto Braga

É empresário