Diário da Região
OLHAR 360

Otimismo operacional

Começamos o ano com a invasão dos Estados Unidos na Venezuela e um saldo divulgado de 58 mortos

por Monica Abrantes Galindo
Publicado há 12 horas
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
Galeria
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
Ouvir matéria

Quando escrevi o último texto de 2025 queria que o primeiro de 2026 fosse um texto otimista, leve. Os noticiários, ou melhor, a vida, entretanto, não permite isso com facilidade.

Começamos o ano com a invasão dos Estados Unidos na Venezuela e um saldo divulgado de 58 mortos. Não tenho informações suficientes para falar do governo de lá. Parece que há violências e violações de direitos humanos e jurídicos, mas parece que também em meio à pobreza, não há miseráveis como por aqui e que há muitas riquezas naturais em jogo para além dos interesses humanitários. Desse evento só consigo pensar no princípio de que não se pode sequestrar lideranças nacionais e julgá-las a partir das referências dos sequestradores.

De maneira jocosa e muito simplificada, seria mais ou menos como se o proprietário do apartamento de cobertura do seu prédio invadisse seu apartamento, levasse você para a casa dele e decidisse qual seria o cardápio das refeições da sua família, porque vocês não andam se alimentando de forma correta. Talvez vocês realmente não andem se alimentando bem, mas certamente não pode ser um externo à sua casa a tomar decisões sobre isso. Não entendo os que aplaudem essa atitude. Não podemos aplaudir uma atitude autoritária nem de um lado e nem do outro. E se me permitem um momento de puro egoísmo, temos que temer as intromissões que já aconteceram por aqui e podem acontecer novamente. Se hoje lhe parece adequada uma invasão de um país e o sequestro de uma liderança nacional, seja ela boa ou ruim segundo os seus critérios, uma invasão de qualquer outro país e o sequestro de qualquer outra liderança, seja ela boa ou ruim para você, também podem acontecer.

Sem nenhuma gravidade, a princípio, tivemos a história da mulher que esperava o Brad Pitt no aeroporto para se casar. Brincadeira ou não, só me lembra que a inocência ou a ignorância estão sempre próximas de todos nós. O princípio aqui é que errar ou acreditar, mesmo que seja em algo considerado um absurdo para alguns é sempre um risco e uma possibilidade presente, para mim e para você também. Eu já caí em um golpe de e-mail. Não esperei o Brad Pitt, mas tive que cancelar meu cartão de crédito. E aqui não vai nenhuma praga, mas uma constatação quase estatística: se você usa a internet, em algum momento você vai cair em um golpe financeiro ou acreditar em uma notícia falsa. Não porque você seja mais ou menos esperto que a maioria, mas porque os golpes e as ferramentas que os subsidiam têm ficado cada dia “melhores”.

Para Ariano Suassuna, escritor e intelectual brasileiro, o otimista é um tolo e o pessimista, um chato. Sua opção era ser um realista esperançoso, que me parece ser a difícil mistura equilibrada e oscilante entre o otimismo e o pessimismo.

Comecei com um desejo de otimismo e termino com um pouco de medo e preocupação. Ainda assim, insisto no otimismo, mesmo que tolo, no mínimo como uma opção operacional para viver, porque sem um pouco de otimismo fica impossível sair da cama de manhã.

Monica Abrantes Galindo

É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos Mulheres na Politica e CDINN -Coletivo