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Olhar 360

O xerife e a Venezuela

por Andrew Okamura Lima
Publicado em 08/01/2026 às 03:32
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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Que o governo do atual presidente dos Estados Unidos estava fadado à perplexidade global já era esperado. Contudo, no último sábado, 3, essa perplexidade atingiu outro nível. Ao realizar uma ação militar – não apenas bombardeando Caracas, mas também prendendo e capturando o ditador venezuelano Nicolás Maduro, juntamente com a sua esposa, levando-os para Nova Iorque – Trump passou por cima de diversos tratados internacionais.

Um destes tratados é a própria Carta das Nações Unidas, de 1945, que em seu artigo 2º, inciso IV, estabeleceu: “Todos os membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os propósitos das Nações Unidas”.

Utilizando-se da argumentação de que o ditador venezuelano seria líder do Cartel de Los Soles e de que o governo estadunidense estaria defendendo a liberdade e a democracia na Venezuela, Trump ordenou a operação. Nada mais enganoso, nada mais falso. O mandatário estadunidense parece não ligar para o conceito de democracia, pois, em diversos momentos, estreitou relações com ditadores do Oriente Médio, principalmente da Arábia Saudita.

Em nenhum momento, o ataque teve como objetivo a proteção do sofrido povo venezuelano, mas, sim, a defesa de interesses comerciais ligados ao sempre “imprescindível” petróleo.

Detentora de uma das maiores reservas globais de petróleo, a Venezuela não atua apenas como uma grande fornecedora para diversos países como Irã e China, mas também exerce influência sobre o preço do petróleo no mercado internacional.

Ciente desse fato, o governo norte-americano construiu uma narrativa para justificar sua ação e, de forma previsível, anunciou na terça-feira, dia 6, que o governo interino da Venezuela entregaria 50 milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos.

Como se fosse um xerife saído de um filme de faroeste de Sergio Leone, Trump, com suas armas em punho, matando os bandidos, revela resquícios da violência e da lógica neocolonialista do século XIX. As ações do presidente estadunidense relembram o comportamento do rei Leopoldo II da Bélgica, ou mesmo da famosa rainha Vitória que, por meio da violência, exerceram seus governos acima de qualquer estrutura jurídica.

Bem verdade que Nicolás Maduro não era um modelo de “cidadão de bem”. Ditador responsável pela prisão de diversos opositores, transformou um país que reunia todas as condições para se tornar uma das principais potências globais em um cenário de miséria e colapso social. Entretanto, mesmo assim, tal realidade não justifica as ações do governo Trump.

Ao invadir deliberadamente outro país e interferir em seu processo político, os Estados Unidos ferem gravemente a soberania de outra nação – algo inaceitável para um governo democrático. O absurdo dessa ação torna-se ainda mais evidente quando até a extrema-direita francesa, por meio de sua principal liderança, Marine Le Pen, repudia a ação militar norte-americana, ao afirmar: “Existem mil razões para condenar o regime de Nicolas Maduro: comunista, oligarca e autoritário (...), porém existe uma razão fundamental para me opor a mudança que os Estados Unidos provocaram na Venezuela. A soberania de um país não pode ser jamais negociada”.

Não se trata de uma disputa entre espectros políticos de direita ou esquerda, mas da defesa do princípio da soberania nacional. Como nos idos anos do período da Guerra Fria, observa-se que a América Latina voltou a ser um triste palco dos interesses internacionais. Não há preocupação com a soberania ou economia das nações latino-americanas, apenas com os interesses próprios dos Estado Unidos. Como se não bastasse a ofensiva militar contra a Venezuela, observamos a crescente tensão com a Colômbia. O que virá depois isso? Outra invasão? Outra derrubada de governo?

Aos que concordam com a intervenção de Trump na América Latina e a justificam com a velha retórica do combate ao comunismo, vale um alerta: atenção à Groelândia, pois ao que tudo indica, ela também está na mira do xerife norte-americano.

Para aqueles que ainda acreditam nos princípios do multilateralismo, da democracia e do Estado de Direito, resta apenas torcer para que a diplomacia e o bom senso prevaleçam. Contudo, nos últimos tempos, parece que o bom senso anda em falta no mundo.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo