O tabuleiro de Rio Preto
Chama atenção a percepção crescente de que o governo do Coronel Fábio Candido enfrenta dificuldades para alcançar uma estabilidade administrativa e política

Governos normalmente começam seus mandatos envoltos em expectativa, capital político e uma certa tolerância natural da população. Mas existe um momento em que a gestão deixa de ser analisada apenas pelo discurso e passa a ser cobrada pela capacidade concreta de entregar resultados e manter estabilidade política. Nossa cidade parece estar entrando justamente nessa fase.
Rio Preto tem convivido com uma sequência de ruídos administrativos e políticos que começaram a produzir um ambiente cada vez mais tenso no Executivo e mais inquieto na Câmara Municipal. O episódio envolvendo o contrato de R$ 11,9 milhões com a Santa Casa de Casa Branca, firmado sem licitação e posteriormente revisto pela administração, parece ter sido o ápice, que levou inclusive à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI, que foi viabilizada com votos de vereadores da base do governo.
Chama atenção a percepção crescente de que o governo do Coronel Fábio Candido enfrenta dificuldades para alcançar uma estabilidade administrativa e política. A sucessão de episódios envolvendo, além da questão da saúde, outros temas – como excessivas trocas no secretariado, exploração da Cidade da Criança como estacionamento, show com celebridades à revelia do Conselho Municipal de Políticas Culturais, eventual tentativa de suborno de conselheira tutelar, suposta aquisição de imóvel sem declarar o real valor e com pagamento em espécie, além de toda a polêmica envolvendo a Planta Genérica de Valores e o IPTU – começa a criar uma narrativa de acúmulo de crises. E, na política, a percepção pública pesa tanto quanto ou mais do que os fatos isoladamente considerados.
Ao mesmo tempo, a Câmara Municipal parece ter percebido espaço para buscar ampliar protagonismo. O Legislativo rio-pretense vem se tornando mais barulhento, mais fiscalizador e mais disposto a disputar narrativa pública com o Executivo. Isso significa que os vereadores começam a compreender que o cenário político já não é tão linear quanto parecia no início do mandato. E talvez esteja justamente aí o principal ponto de atenção.
A política de médio prazo aparentemente começou mais cedo em Rio Preto. Ainda estamos distantes da próxima eleição municipal, mas já há movimentações típicas de pré-posicionamento político. Grupos começam a se organizar, lideranças tentam ocupar espaços, vereadores elevam o tom de cobranças e diferentes setores passam a medir oportunidades futuras.
Em cenários assim, crises administrativas deixam de ser apenas problemas de gestão e passam a funcionar como peças de um jogo político mais amplo. Afinal, toda dificuldade enfrentada pelo governo abre espaço para o surgimento de novas lideranças, novos discursos e novos projetos de poder.
Neste aspecto, surgem sinais de articulação nos bastidores da Câmara Municipal sobre uma eventual instalação de uma Comissão Processante – CP em face do Prefeito, sem que fique claro quem estaria puxando as cordas para tanto, mas aparentemente isso ultrapassa a bolha da oposição. Em caso de aprovação, poderia haver o afastamento do Prefeito e, no final, como consequência mais grave, a perda do mandato. Ainda que uma CP não esteja formalizada, os simples rumores produzem elevado nível de preocupação, tanto que levaram o Prefeito a mobilizar sua base numa reunião em seu gabinete.
O ambiente político aqui hoje parece menos o de um governo consolidado e mais o de um grande xadrez em movimento. Governar uma cidade como Rio Preto exige capacidade técnica, articulação política, habilidade de comunicação e, sobretudo, capacidade de administrar crises. Parece que esse é o desafio do Coronel, daqui para frente, para evitar que este tabuleiro vire, inclusive precocemente.
Henry Atique
Advogado, Professor, ex-Presidente da OAB Rio Preto e Conselheiro Estadual da OAB/SP