Diário da Região
OLHAR 360

O retorno triunfal da tinta (e da verdade)

Encare sua timeline como uma obra de ficção barata. Ria dos absurdos, desconfie das perfeições estéticas e valorize quem coloca a assinatura (e a honra) abaixo do que escreve

por Jurandyr Bueno
Publicado em 23/01/2026 às 22:04Atualizado em 24/01/2026 às 01:07
Jurandyr Bueno (Jurandyr Bueno)
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Sejamos francos: o único vestígio de verdade inquestionável que você encontrou na internet hoje foi a notificação de débito do seu banco. Todo o resto? Bem, é um convite educado à dúvida cartesiana.

Aterrissamos em 2026, o ano em que a realidade se tornou um conceito “vintage”, algo que nossos avós apreciavam, como disco de vinil ou aposentadoria integral.

Navegar pela web deixou de ser um exercício de busca por informação para se tornar uma visita guiada a um museu de cera onde as estátuas se movem, discursam e, invariavelmente, tentam lhe vender cursos de marketing digital.

A internet, nascida sob a promessa iluminista de democratizar o saber, metamorfoseou-se na mais eficiente máquina de ficção especulativa da história humana.

Habitamos hoje um ecossistema delirante onde bots debatem com bots na seção de comentários de notícias redigidas por outros bots. É um teatro de marionetes sem humanos na plateia, apenas algoritmos tentando vender engajamento uns aos outros num loop infinito.

Neste cenário, contudo, há uma dualidade que oscila entre o sombrio e o irônico.

O aspecto sombrio reside no nosso pacto silencioso com a falsidade. No fundo, a razão nos alerta que o vídeo do político é um “deepfake”; que o colega do LinkedIn também sofre nas segundas-feiras e que a influenciadora digital do Instagram não possui, biologicamente, uma pele de plástico à prova de insônia. Mas clicamos. A ficção é inebriante e, admitamos, vence a realidade por nocaute técnico na disputa pela nossa atenção.

E aqui também reside a maior e mais deliciosa ironia da nossa década: a desinformação exponencial, anabolizada por processadores quânticos, acabou por salvar a velha e boa imprensa tradicional.

Em um oceano de textos sintéticos e realidades fabricadas, a credibilidade tornou-se o ativo mais escasso - e valioso - do planeta. Subitamente, ler um veículo como o Diário da Região deixou de ser apenas um hábito cotidiano para se tornar um ato de legítima defesa cognitiva.

A sociedade percebeu, talvez tardiamente, que o algoritmo não possui bússola moral. Se uma IA inventa uma falácia, ela não perde o sono. Já o jornalista profissional... ah, este é diferente. Este tem boletos, tem nome na praça e carrega uma reputação que leva trinta anos para ser construída e trinta segundos para implodir.

Hoje, a verdade refugiou-se nessas fortalezas de papel e tinta. Ela só é encontrada onde existem profissionais que ainda gastam sola de sapato (e a bateria do celular) na apuração; que checam o fato três vezes antes de publicar, não por santidade, mas porque o seu “business” é a confiança. Veículos sérios são como uma ilha de sanidade em um arquipélago de delírios digitais.

Portanto, caro leitor, a recomendação é a do ceticismo saudável. Encare sua timeline como uma obra de ficção barata. Ria dos absurdos, desconfie das perfeições estéticas e valorize quem coloca a assinatura (e a honra) abaixo do que escreve.

E quanto a este artigo? Foi escrito por um jornalista humano experiente ou por um modelo de linguagem tentando emular um jornalista humano experiente?

Na dúvida, desligue o roteador e vá lá fora. Dizem que as árvores e as nuvens ainda são renderizadas em 3D real, sem travamentos e, o mais importante, sem a opção de curtir.

Jurandyr Bueno

É jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor