O que está acontecendo?
Vivemos tempos nebulosos, marcados por ruído, polarização excessiva, insegurança jurídica e uma sensação coletiva de que algo não está no lugar certo

Desde que me entendo por gente, como se costuma dizer, ou seja, desde que adquiri alguma consciência política, cidadã e um mínimo de maturidade para observar a realidade ao meu redor, sempre ouvi a frase que se repete quase como um mantra nacional: o Brasil teria tudo para dar certo.
Temos país continental, riquíssimo em recursos naturais, com um povo criativo, trabalhador, resiliente, capaz de se reinventar mesmo diante das maiores adversidades. Um país que poderia ocupar posição muito mais relevante no cenário mundial, oferecer melhores condições de vida à sua população e um ambiente mais seguro e previsível para quem empreende, investe e gera empregos.
Mas, ao mesmo tempo, essa promessa de grandeza nunca se concretiza plenamente. O discurso otimista convive, há décadas, com outro igualmente recorrente: o de que o Brasil não tem jeito. De que aqui as coisas não funcionam como deveriam. De que somos um país que parece incapaz de se organizar institucionalmente, de planejar o futuro e de romper ciclos históricos de ineficiência, improviso e corrupção. Essa sensação, por vezes, se intensifica; em outros momentos, cede espaço a uma esperança tímida, quase cautelosa, de que dias melhores possam surgir.
O momento atual, contudo, parece particularmente estranho. Uso esse termo de forma proposital, talvez até eufemística, porque é difícil encontrar uma palavra precisa para definir o que estamos vivendo. Há uma percepção difusa, mas crescente, de que as instituições não estão atuando exatamente como deveriam. Ou, no mínimo, de que parte de seus integrantes tem adotado posturas que geram dúvidas, insegurança e desconfiança na sociedade.
Quando olhamos para o Poder Executivo, o que se vê é uma dificuldade crônica de planejamento, comunicação truncada e decisões que muitas vezes parecem desconectadas da realidade econômica e social do país. No Legislativo, prevalece uma sensação de distanciamento em relação às reais demandas da população, com pautas fragmentadas, negociações pouco transparentes e uma permanente crise de credibilidade. Já o Poder Judiciário, que deveria ser o pilar da estabilidade institucional e da previsibilidade jurídica, também passa a ser visto, por parcela significativa da sociedade, como um ator envolto em controvérsias e decisões de difícil compreensão.
Não se trata aqui de apontar culpados individuais, tampouco de desqualificar as instituições em si, que são essenciais à democracia. O que se propõe é uma reflexão honesta sobre o ambiente que se formou. Vivemos tempos nebulosos, marcados por ruído, polarização excessiva, insegurança jurídica e uma sensação coletiva de que algo não está no lugar certo. E, em um ano com eleições federais e estaduais, isso tende a se agravar cada vez mais.
Talvez o maior risco desse cenário seja a naturalização do estranhamento. Quando o anormal passa a parecer normal, quando a exceção vira regra e quando a desconfiança se torna permanente, o tecido social se desgasta. E isso afeta diretamente o cidadão comum, o trabalhador, o empresário, o jovem que pensa no futuro e até quem ainda insiste em acreditar que o país pode, sim, encontrar um caminho mais sólido, por mais que isso pareça cada vez mais difícil.
O Brasil não é um país sem solução. Mas também não avançará enquanto não houver um esforço real de fortalecimento institucional, respeito aos limites constitucionais, responsabilidade na condução da coisa pública e compromisso efetivo com o interesse coletivo. Talvez o primeiro passo seja reconhecer, sem paixões ou rótulos, que o momento é estranho e que justamente por isso exige mais lucidez, mais diálogo, mais responsabilidade e mais engajamento de todos.
Henry Atique
Advogado, professor, ex-presidente da OAB Rio Preto e conselheiro estadual da OAB/SP.