O negócio da guerra

Há algumas semanas, escrevemos aqui nesta coluna sobre a “primavera iraniana” e a estrutura do poder político daquele país. Naquela ocasião, observamos que o regime dos aiatolás, iniciado em 1979 com Ruhollah Khomeini, foi sucedido, a partir de 1989, por Ali Khamenei.
À época, a morte do então aiatolá em decorrência de um ataque externo era impensável, uma vez que, mesmo diante da enorme pressão interna pelo fim de seu regime, havia negociações diplomáticas em curso.
No último dia 1º de março, a coalizão entre Estados Unidos e Israel bombardeou o complexo residencial em Teerã, onde estavam não apenas Khamenei, mas também sua família e parte significativa das lideranças políticas do Irã.
Abdolrahim Mousavi, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (cargo máximo na estrutura militar); Aziz Nasirzadeh, vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; Mohammad Pakpour, comandante-chefe da Guarda Revolucionária Islâmica; e Ali Shamkhani, secretário do Conselho de Segurança, foram mortos com Khamenei e seus familiares.
Quatro das sete principais lideranças do governo iraniano foram mortas no ataque, o que caracteriza um sucesso absoluto na operação militar impetrada pelos norte-americanos e israelenses. Apenas Masoud Pezeshkian, atual presidente; Gholamhossein Mohseni Ejei, chefe do judiciário; e Alireza Arafi, membro do Conselho dos Guardiões, sobreviveram. O nome do novo aiatolá deve ser escolhido nos próximos dias, orbitando, muito provavelmente, entre Alireza Arafi e Mojtaba Khamenei. Pela força do sobrenome nas esferas políticas iranianas, o poder deve ficar com Mojtaba.
Independentemente do sucessor de Ali Khamenei, a reação iraniana ocorre conforme previsto pelos serviços de inteligência israelense e norte-americano, com a intensificação de ataques no próprio território de Israel, como demonstram as recentes tentativas do grupo Hezbollah, além da ampliação das ofensivas contra outros países da região, como Emirados Árabes Unidos e o Catar.
Como consequência adicional, espera-se o fechamento do Estreito de Ormuz, área estratégica, responsável pela circulação de navios petroleiros que transportam cerca de 20% do petróleo mundial.
Segundo o próprio presidente norte-americano, a guerra deverá durar de quatro a cinco semanas. Contudo, se necessário, os Estados Unidos estariam preparados para sustentar o conflito por mais tempo. Trata-se de uma mudança clara de postura, pois, anteriormente, Trump afirmara que o regime iraniano seria esmagado em questão de dias.
No fundo, a guerra sempre será um “negócio” rentável. De acordo com levantamento realizado pela revista Forbes, o custo da guerra contra o Irã pode variar entre 65 e 95 bilhões de dólares, dependendo da duração do conflito. Nada que se aproxime dos quase 6 trilhões de dólares, gastos em campanhas militares no Oriente Médio entre os anos de 2001 e 2025, segundo estimativas da Universidade de Brown.
Nesse contexto, a indústria bélica norte-americana promete ter um ano promissor, em termos de lucros com as diversas operações que estão previstas para a campanha contra o Irã.
Além disso, evidencia-se a flutuação nos preços internacionais do petróleo. Antes do ataque ao Irã, segundo o Goldman Sachs, a expectativa do preço do barril (Brent) era oscilar entre 60 e 70 dólares até o fim do ano. Após os ataques, a projeção passou a indicar que o preço do barril pode superar os 90 dólares. Essa estimativa demonstra como um conflito no Oriente Médio pode provocar forte alta no preço internacional do petróleo. Um excelente negócio, para os países que vivem desse comércio, os três maiores: Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos.
Motivos à parte, não parece que o conflito com o Irã tenha sido iniciado apenas por razões humanitárias ou democráticas, tampouco exclusivamente por preocupações com a proliferação da tecnologia nuclear – basta observar o caso do Paquistão. Há sim, uma confluência de interesses da indústria bélica e petrolífera, bem como, interesses estratégicos compartilhados por Israel, Estados Unidos e Arábia Saudita.
O regime iraniano enfrenta o maior teste desde a sua criação. Impossível ainda dizer se vai se tornar um país democrático, se haverá o retorno do regime do Xá ou se o regime dos aiatolás conseguirá permanecer. Afinal, como diria William Shakespeare, “existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.