Diário da Região
Olhar 360

O muro tremeu

O muro não é território neutro. É zona de conveniência. Quem se mantém ali acredita estar evitando o custo da escolha, mas já produziu um efeito concreto: fortaleceu um lado

por Beto Braga
Publicado em 04/03/2026 às 00:32Atualizado há 15 horas
Beto Braga (Beto Braga)
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Havia um grande muro dividindo o céu e o inferno. Sobre o muro, um jovem indeciso, criado em lar cristão, hesitava entre seguir a Deus ou se entregar aos prazeres do mundo.

Os anjos o chamavam com insistência: “Ei! Desce do muro e vem pra cá!” Do lado do inferno, silêncio. Ninguém o pressionava. Intrigado, ele perguntou: “Por que vocês não me chamam?” Satanás sorriu: “Porque o muro é meu".

A parábola é simples e dura. O muro não é território neutro. É zona de conveniência. Quem se mantém ali acredita estar evitando o custo da escolha, mas já produziu um efeito concreto: fortaleceu um lado.

Na votação da revogação da planta genérica, dois vereadores escolheram o muro. A proposta foi derrotada por um voto. A cidade compareceu. As galerias estavam cheias. Comerciantes, trabalhadores, famílias preocupadas com aumentos progressivos do IPTU. A pressão era legítima, visível e transversal. Gente de todas as camadas sociais ocupou a Câmara.

Ao meu lado estava uma senhora simples com uma menina de cerca de dez anos. Disse que criava a criança porque a mãe a havia abandonado. Vivia de aposentadoria. Falou, com uma serenidade que constrange, que o dinheiro mal dava para comprar ovo. E que não fazia ideia de como pagaria o novo IPTU. Aquela mulher não estava ali por ideologia. Estava ali por sobrevivência, por dignidade.

Os dois vereadores tinham três opções claras. Poderiam votar contra a revogação e defender publicamente a planta. Seria uma posição política legítima. Poderiam votar a favor e enfrentar o Executivo. Também seria uma escolha clara. Mas preferiram a abstenção.

A justificativa foi que o prefeito “congelou” os efeitos e que haveria ajustes futuros. Uma aposta na promessa. Um voto baseado na expectativa de que talvez algo mude. Mas congelar não é revogar. Suspender não é corrigir. Manter a estrutura legal intacta é preservar o poder de reativá-la.

Ao se absterem, esses vereadores não ficaram neutros. O resultado da votação prova isso. A planta permanece. O mecanismo que permite aumentos expressivos continua vivo. O risco para o contribuinte segue existindo.

Abstenção, nesse caso, teve lado. Quando a decisão afeta diretamente o bolso da população e o ambiente econômico da cidade, não votar é transferir o peso da escolha para os outros. É preservar alianças, evitar desgaste e não assumir o ônus político.

Ainda assim, o resultado da sessão revelou algo importante: o prefeito saiu derrotado politicamente. Sua base, que até pouco tempo parecia sólida, mostrou rachaduras evidentes. Foram 11 votos contra o prefeito e apenas 9 a favor. Onze, se considerarmos, na prática, os dois que se abstiveram. A maioria folgada que sustentava o governo simplesmente deixou de existir. Isso muda o tabuleiro.

A oposição, apoiada por uma mobilização popular real, percebeu que não está isolada. Quando a sociedade ocupa as galerias e pressiona seus representantes, a aritmética política começa a mudar. Aquela senhora ao meu lado, que fazia contas para saber se conseguiria continuar comprando ovo, disse algo que parecia exagero no calor do momento: “Esse prefeito ainda pode sair da Prefeitura".

Talvez seja apenas indignação. Talvez seja intuição política. O fato é que a votação mostrou que o poder já não é tão confortável quanto parecia. Quando a base racha e o povo aparece, excessos passam a ter custo. A parábola ensina que o muro pertence a alguém. Na política, ele quase sempre pertence a quem já está no poder. Mas a sessão desta semana mostrou outra coisa: quando a cidade decide subir as escadas da Câmara e olhar seus representantes nos olhos, até os muros começam a tremer.

Em democracia, neutralidade em votação decisiva não é virtude. É decisão com consequência. E, desta vez, além de manter viva uma medida rejeitada pela população, ela também revelou algo que talvez seja ainda mais importante: o prefeito já não governa com a tranquilidade de antes.

Beto Braga

É empresário