O Legado de Jesse Jackson

Em meio à folia carnavalesca no Brasil, entre debates religiosos acerca dos desfiles das escolas de samba e o processo eleitoral que já estamos vivenciando, uma triste notícia chamou atenção. Triste, porque poucas pessoas no mundo possuíam a sobriedade e a lucidez de Jesse Jackson, falecido no último dia 17.
Contudo, a tristeza deu lugar à esperança ao reler trechos de sua intensa trajetória em algumas obras, como “Jesse Jackson and the fight for black political power” da jornalista Abby Phillip, e “I am somebody: Why Jesse Jackson Matters” do também jornalista David Masciotra.
Jesse Jackson nasceu em 1941 em Greenville. Tornou-se um expoente na luta por direitos civis, igualdade racial, justiça social e direitos humanos. Criado sob a abjeta segregação racial estadunidense, iniciou seus estudos na Carolina do Norte e, mais tarde, completou sua formação em Chicago.
Na anos 1960, participou do movimento liderado por Martin Luther King Jr., a Conferência da Liderança Cristã do Sul. Orador talentoso, rapidamente passou a discursar ativamente nas campanhas pelos direitos civis e nas mobilizações contra a segregação racial. Com a sua forte presença, assumiu uma posição de destaque no movimento, tendo Luther King como mentor. Contudo, com o assassinato de Luther King, em 4 de abril de 1968, ele se tornou o principal expoente do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.
Nos anos 1970, fundou a Operação PUSH (sigla em inglês para Pessoas Unidas para Servir à Humanidade), focada em melhorar as oportunidades econômicas para a comunidade afro-americana, tornando-se uma das figuras políticas mais influentes dos país.
Já nos anos 1980, criou a National Rainbow Coalition, que buscava unir as minorias raciais, trabalhadores, mulheres e outros grupos marginalizados, em torno de uma agenda comum de justiça social. Segundo o reverendo Al Sharpton, “ele manteve o sonho vivo e ensinou a crianças de lares desfeitos, como eu, que não temos espíritos quebrados. Ele nos disse que éramos alguém e nos fez acreditar”.
Esse período também marcou sua entrada para a política institucional, com a candidatura às prévias do Partido Democrata em duas ocasiões (1984 e 1988). Em 1988, protagonizou uma campanha histórica ao derrotar, nas primárias, alguns dos nomes favoritos à indicação do partido nas eleições gerais, como Al Gore e Joe Biden. Dessa forma, consolidou-se como um dos primeiros afro-americanos a obter uma votação expressiva em uma candidatura presidencial, abrindo caminho para que lideranças como Barack Obama emergissem no cenário político estadunidense.
Após sua incursão pela política, Jackson passou a atuar informalmente em missões diplomáticas, negociando a libertação de prisioneiros em zonas de conflitos, além de continuar defendendo as causas humanitárias.
Em suas diversas viagens pelo mundo – especialmente à África do Sul – criticou o racismo estrutural naquele país e, com o tempo, tornou-se um dos maiores críticos norte-americanos contra o regime do apartheid, vendo na luta de Mandela um eixo global do movimento liderado por Luther King nos Estados Unidos. Somente na década de 1990, após a libertação de Mandela, ocorreu o encontro entre os dois líderes, ocasião em que “Madiba”, ressaltou a importância do reverendo Jackson na pressão internacional que contribuiu para enfraquecer o apartheid.
Em sua trajetória, Jesse Jackson foi fiel aos princípios básicos que nortearam as almas de pessoas como Martin Luther King Jr., Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi e Nelson Mandela, os quais, apesar das tragédias pessoais enfrentadas, encontraram forças para lutar pela humanidade por meio da não violência.
Homem de fé inabalável, teve a sua existência marcada, desde o princípio, por um racismo estrutural, fazendo de sua fé e autonomia intelectual, duas poderosas ferramentas para criticar e lutar contra as diversas mazelas que historicamente assolaram a humanidade. Sem dúvida, sua luta foi árdua. Ao final, porém, Jackson elevou-se na história, tal como seu amigo e mentor Martin Luther King Jr. Se “a palavra convence, mas o exemplo arrasta”, Jesse Jackson cumpriu seu dever até o fim com suas palavras, mas, principalmente, com seus exemplos.
Andrew Okamura Lima
Historiador e filósofo