Comece hoje pagando a partir de R$5/mês no plano mensal
Olhar 360

O Estado como solução: o Brasil precisa superar essa crença

Há uma suposição implícita e pouco questionada no estatismo: a de que burocratas e políticos possuem capacidade e ética superior para tomar decisões que afetam milhões de pessoas

por Andrew Okamura Lima
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
Galeria
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
Ouvir matéria

Há um fenômeno cultural profundamente enraizado em nossa sociedade: a crença de que o Estado é o agente natural responsável por resolver os problemas das pessoas. Essa visão não nasceu do acaso. Foi construída ao longo de décadas por meio de narrativas políticas enviesadas, currículos escolares e práticas assistencialistas que posicionaram o governo e seus agentes como os grandes provedores da vida pública e privada.

Desde a década de 1930, com o Estado Novo, até o populismo contemporâneo e a massificação da propaganda política (comprometida apenas com manutenção de poder e não com bem-estar do povo), a narrativa de que governos resolvem todos os problemas da sociedade impregna nossa mentalidade e carece de embasamento racional.

O resultado é visível e se materializa em uma população manipulada, que aguarda do Estado soluções para seus problemas, enquanto convive com uma classe política majoritariamente corrupta, formada por intocáveis, que usurpa o bolso do povo trabalhador com impostos absurdos em troca de serviços públicos precários.

Há uma suposição implícita e pouco questionada no estatismo: a de que burocratas e políticos possuem capacidade e ética superior para tomar decisões que afetam milhões de pessoas. Não existe base lógica para essa crença e os fatos historicamente demonstram justamente o contrário.

Não por acaso os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Relatório de Liberdade Econômica do Fraser Institute (disponível em https://www.fraserinstitute.org/studies/economic-freedom-world-2025-annual-report) demonstram correlação consistente entre menor intervenção estatal direta e maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Países como Nova Zelândia, Dinamarca e Canadá, que combinam mercados dinâmicos, segurança jurídica e intervenção estatal mínima e direcionada, ocupam os primeiros lugares do IDH. Já nações com alto controle estatal, burocracia opressiva e monopólios registram estagnação e maior desigualdade. A liberdade individual e a contenção estatal não significam abandono social; na realidade são uma condição necessária para que a sociedade gere riqueza, inove e a redistribua por meio da iniciativa privada, do associativismo e da filantropia.

Friedrich Hayek chama essa característica de "o problema do conhecimento": nenhum político e burocrata “planejador central” tem acesso às informações que apenas o sistema de escolhas livres consegue difusamente processar de forma eficiente. Quando o Estado tenta substituir esse mecanismo por decreto, o resultado é invariavelmente ineficiência, prejuízos sociais, escassez ou distorção.

Quando uma instituição privada é mal gerida, acumula prejuízos, perde clientes, fecha e seus responsáveis arcam com as consequências. Quando um ente estatal é mal gerido, com trocas frenéticas de secretários, escândalos constantes, casos de corrupção, déficits nas contas públicas etc, o mecanismo de punição aos responsáveis simplesmente não existe.

O cidadão é refém de uma classe de agentes públicos intocáveis, que se autoprotegem, que compram o cínico apoio de setores da comunicação, de pseudos formadores de opinião através do dinheiro obtido por meio de uma carga de impostos que rouba do contribuinte sua dignidade e o torna dependente do Estado.

Superar a cultura do estatismo não significa abandonar os mais vulneráveis. Significa reconhecer que o verdadeiro poder está nas mãos das pessoas comuns e a prosperidade sustentável nasce da liberdade individual, da responsabilidade pessoal e de instituições que protegem, sem substituir, as escolhas das pessoas.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo