O debate que o Brasil deveria ter
Precisamos saber quais reformas cada candidato pretende realizar, como serão financiadas e quais resultados poderão ser cobrados

As eleições presidenciais de outubro se aproximam, mas o país parece caminhar para uma disputa marcada menos por projetos e mais pela polarização. O ambiente político permanece carregado, intolerante e, muitas vezes, extremado. Em vez de uma escolha entre diferentes caminhos para o futuro, provavelmente iremos assistir a mais uma campanha dominada por rejeições, acusações e conflitos.
As pesquisas colocam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro como os principais nomes da disputa. Ambos chegam à eleição sob escrutínio público e cercados por denúncias ou investigações que atingem suas trajetórias ou seus grupos políticos. Evidentemente, acusações não equivalem a condenações. O devido processo legal, a ampla defesa e a presunção de inocência devem ser respeitados, independentemente da posição política do investigado.
O problema vai além da situação jurídica de cada candidato. Quando os protagonistas de uma eleição precisam dedicar grande parte do tempo a responder suspeitas, rebater acusações e defender o próprio passado ou o seu entorno, o debate sobre o futuro fica em segundo plano. O eleitor passa a ouvir mais explicações sobre escândalos do que propostas concretas para o país.
E não faltam assuntos urgentes. O Brasil precisa discutir como voltar a crescer, aumentar a produtividade, equilibrar as contas públicas, melhorar a educação, enfrentar a violência, modernizar a infraestrutura, simplificar o ambiente de negócios e reduzir as desigualdades. Precisamos saber quais reformas cada candidato pretende realizar, como serão financiadas e quais resultados poderão ser cobrados.
Uma eleição presidencial não deveria ser apenas um julgamento sobre quem tem menor rejeição, quem acusa melhor ou quem se defende com maior habilidade. Deveria ser a oportunidade de comparar diagnósticos, prioridades e projetos de governo. Quando a campanha se transforma numa sucessão de ataques e respostas, a democracia se empobrece, porque o voto deixa de ser orientado por ideias e passa a ser movido pelo medo, pela raiva ou pela aversão ao outro lado.
A polarização agrava esse problema. Propostas deixam de ser avaliadas por seus méritos e passam a ser aceitas ou rejeitadas conforme quem as apresentou. O que vem do campo que se apoia é defendido quase sempre; o que parte do adversário é recusado antes mesmo de ser examinado. Assim, o país perde a capacidade de construir consensos sobre temas que deveriam ultrapassar governos e partidos.
A economia também paga por esse ambiente. Instabilidade política, insegurança institucional e ausência de uma agenda clara aumentam a desconfiança de empresários, investidores e consumidores. Enquanto outras nações oferecem previsibilidade, segurança jurídica e planejamento, o Brasil transmite a imagem de um país preso a conflitos intermináveis. Decisões são adiadas e oportunidades são perdidas.
Investigar eventuais irregularidades é indispensável. Garantir defesa aos acusados também. Mas o Brasil não pode passar mais uma eleição inteira olhando apenas para denúncias e processos. Seria imprescindível que os candidatos cuidassem menos de ataques e mais de projetos claros, prioridades realistas e compromissos verificáveis.
O Brasil não precisa de uma eleição para decidir quem grita mais alto, quem acusa melhor ou quem se defende com maior habilidade. Precisa de uma eleição capaz de responder como voltaremos a crescer, como melhoraremos a educação, como enfrentaremos a criminalidade e como construiremos um Estado mais eficiente. O país não pode continuar discutindo apenas quem errou ontem. Está na hora de discutir quem sabe conduzir o amanhã.
Henry Atique
Advogado, professor, ex-presidente da OAB Rio Preto e conselheiro Estadual da OAB/SP