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O caso Jeffrey Epstein

por Andrew Okamura Lima
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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Nas últimas semanas, o caso Jeffrey Epstein voltou a ocupar espaço na imprensa internacional. A publicação dos documentos do processo, reunidos ao longo de vários anos, foi autorizada pela Justiça norte-americana, provocando um verdadeiro terremoto entre as elites mundiais.

Nas mais de três milhões de páginas de documentos, além de milhares de vídeos e imagens, observa-se uma íntima relação de Epstein com personalidades que orbitam nomes como os do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o hoje desacreditado príncipe Andrew, além de Ehud Barak, Bill Clinton, Noam Chomsky e Mette-Marit, herdeira da Coroa Norueguesa.

Jeffrey Epstein foi um financista com inúmeras ligações na política, na indústria cinematográfica e no mundo intelectual. Com uma grande capacidade financeira, manteve suas “bases” de operação em cidades estratégicas ao redor do mundo, como Nova York, Paris, Flórida e Ilhas Virgens.

Em 2004, as investigações iniciais foram conduzidas pelo Departamento de Polícia de Palm Beach, após uma série de denúncias feitas por famílias de diversas vítimas. Essa investigação reuniu dezenas de depoimentos que imputavam a Epstein graves acusações de crimes sexuais contra menores. O caso foi encaminhado à promotoria estadual, onde houve uma série de conflitos de argumentações entre a gravidade das evidências reunidas pela polícia e a forma como o caso foi conduzido judicialmente.

Com o acúmulo das denúncias e uma estranha ineficiência da Justiça da Flórida, as investigações foram transferidas para o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, passando, assim, à esfera federal. Após mais um episódio controverso do sistema judicial norte-americano, o procurador federal responsável pelo Distrito Sul da Flórida estabeleceu um acordo judicial em 2008, no qual evitou que as acusações federais recaíssem em Epstein, assim como garantiu imunidade a possíveis cúmplices, resultando em uma pena extremamente leve para Epstein.

Em 2018 o caso foi reaberto após uma série de reportagens do Miami Herald, conduzidas pela jornalista Julie Brown, nas quais foram denunciadas as graves falhas no acordo de 2008, o sistemático silenciamento das vítimas e a proteção institucional dada ao caso, devido a influência de Epstein e de sua rede de conexões.

A partir de então, a Procuradoria do Distrito Sul de Nova York passou a investigar o caso, levando a promotoria a apresentar diversas acusações de tráfico sexual de menores contra Epstein e uma série de pessoas. Foi nesse contexto que Epstein acabou sendo preso no dia 6 de julho de 2019 e, em 29 de julho, suicidou-se na prisão.

As acusações sobre Epstein ganharam mais força quando sua ex-namorada Ghislaine Maxwell – filha de Robert Maxwell – foi condenada, em 2021, a 21 anos de prisão, também por tráfico sexual infantil. Segundo as provas colhidas, Maxwell atuou diretamente como a recrutadora das crianças e adolescentes que seriam abusadas nos “encontros” promovidos por Epstein.

O aliciamento envolvia pagamentos em dinheiro, ajuda financeira contínua e promessas de apoio educacional. Segundo depoimentos colhidos pela polícia, as vítimas eram incentivadas a indicar ou atrair outras meninas, mantendo o funcionamento contínuo do esquema.

Com a morte de Epstein, o caso ganhou ainda mais notoriedade, tornando-se pauta política nas últimas eleições dos Estados Unidos. Sob forte pressão popular, a Justiça autorizou a liberação dos materiais no início deste mês, reacendendo o debate acerca dos crimes cometidos por Epstein e seus “nobres” companheiros. Em alguns vídeos, é possível ver claramente a presença de homens considerados “acima de qualquer suspeita” observando grupos de meninas vestidas de branco, visivelmente intimidadas com toda aquela situação.

Evidentemente, o caso Epstein não é um episódio isolado na história. Infelizmente “encontros” como esses ocorrem há milênios. A baixeza de tais atos ultrapassa campo ético, configurando uma verdadeira aberração, especialmente por terem sido praticados pela chamada “fina flor” da sociedade mundial. A quantidade de violência praticada contra essas meninas extrapola absolutamente tudo.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo