Diário da Região
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Nunca foi sobre corrupção

A moral e a ética se tornam seletivas, moldáveis e negociáveis conforme o sobrenome, o círculo social ou o alinhamento político

por Beto Braga
Publicado há 3 horasAtualizado há 3 horas
Beto Braga (Beto Braga)
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O caso do cachorro Orelha, espancado até a morte em Santa Catarina, mobilizou uma indignação legítima. Mas também revelou algo mais profundo e incômodo: a rapidez com que parte da sociedade corre para absolver moralmente os agressores ao chamá-los de “crianças de bem” ou “jovens de bem”, como se esse rótulo funcionasse como salvo-conduto ético e moral.

Essa reação não surge no vácuo. Ela dialoga diretamente com uma cultura política que conhecemos bem em Rio Preto e que vem sendo naturalizada ao longo dos últimos anos.

Vimos cidadãos autodeclarados como “de bem” ocuparem as ruas em passeatas contra a corrupção. O discurso era moralista, inflamado, muitas vezes messiânico. No entanto, havia um detalhe revelador: a corrupção combatida tinha endereço político definido. Era quase sempre a do governo federal, invariavelmente associada à esquerda, ao “comunismo”, a uma ameaça abstrata e distante.

Já a corrupção local, ou ao menos práticas administrativas questionáveis, contradições evidentes e incoerências éticas, era recebida sem constrangimento ou critica ativa. Por simples afinidade política e identitária.

Nunca foi, de fato, sobre combater a corrupção. Foi sempre sobre quem se escolhe combater e, sobretudo, quem se escolhe proteger.

Essa lógica seletiva contaminou a política local de forma profunda e duradoura. Hoje, a Câmara Municipal parece dividida em dois mundos paralelos. De um lado, vereadores que habitam uma realidade distópica onde Rio Preto é apresentada como uma espécie de Suíça tropical, exemplar, limpa, organizada e perfeitamente administrada.

Nesse cenário imaginário, não haveria nada a fiscalizar nem a cobrar do Executivo. Sobra tempo, então, para transformar o mandato municipal em palanque permanente de críticas ao governo federal, como se essa fosse a função constitucional de um vereador, eleito para cuidar da cidade.

Do outro lado, há quem enxergue a cidade concreta. A que convive com o aumento da carga tributária, o abandono de áreas urbanas, a irresponsabilidade fiscal em setores sensíveis como educação e cultura, e uma saúde pública que acumula relatos de atendimento precário, falhas estruturais e mortes que não podem ser naturalizadas nem relativizadas.

Esses vereadores incomodam porque rompem o pacto da fantasia coletiva. Por isso, são frequentemente rotulados como exagerados, ideológicos ou simplesmente “do contra”.

O caso Orelha ajuda a compreender esse padrão. Quando jovens cometem um ato de violência extrema contra um animal e a reação imediata é protegê-los simbolicamente com o selo de “jovens de bem”, não estamos falando apenas de empatia mal direcionada. Estamos diante de uma pedagogia social perigosa, que ensina desde cedo que pertencimento e rede de proteção valem mais do que responsabilidade.

Estudos em psicologia e criminologia há décadas apontam que a crueldade contra animais na infância e na adolescência são um sinal de alerta relevante, que exige intervenção educativa, institucional e social. Minimizar esse comportamento não protege ninguém. Apenas posterga o problema e transfere o custo para o futuro.

Chamar criminosos de “jovens de bem” é talvez o indício mais claro de que algo está profundamente errado. O rótulo substitui a análise. A identidade ocupa o lugar da responsabilidade. O pertencimento social passa a valer mais do que o ato cometido.

Em Rio Preto, como no caso Orelha, o que se vê é a mesma engrenagem em funcionamento: relações acima da lei, afinidades acima dos fatos, narrativas acima da realidade.

A moral e a ética se tornam seletivas, moldáveis e negociáveis conforme o sobrenome, o círculo social ou o alinhamento político. Que tipo de sociedade estamos formando quando a indignação depende do endereço, do partido, da classe ou da rede de contatos? A dúvida que permanece é: “de bem” para quem?

Beto Braga

É empresário