Nos passos da Páscoa
A religião pode ser um espaço de controle dos corpos e das mentes, um espaço em que facilmente se pode dizer em quem se deve votar e em quem não se deve

Na semana em que se comemora a Páscoa, um programa na televisão aberta - Linhas Cruzadas - se propôs a discutir algumas facetas de Jesus de Nazaré: apocalíptica, política, teológica e herética. Independente da discussão em si, em uma sociedade pautada, em muitos aspectos, em elementos da religião cristã, propor que Jesus pode ser olhado sob diferentes perspectivas é corajoso. Principalmente considerando que ter diversas facetas nos afasta de uma visão dogmática de Jesus, já que, por definição, dogma é o que não pode ser questionado. Muito diferente da Ciência, que avança através do questionamento, o pensamento religioso se mantém a partir de princípios não questionáveis.
Em termos religiosos, não se pode negar a existência das pessoas de “má-fé”, que só prosperam a partir da existência das pessoas de “boa-fé” ou de “fácil-fé”. A religião pode ser um espaço de controle dos corpos e das mentes, um espaço em que facilmente se pode dizer em quem se deve votar e em quem não se deve, a partir de orientações e interesses que não são necessariamente os nossos e nem os que Jesus indicaria, se estivesse entre nós hoje.
A religião pode ser, entretanto, um espaço de “religação” para pensar no sentido e na finitude da vida, não como paralisia, mas como possibilidade de ação. Jesus não ficou parado. E considerando os relatos bíblicos, politicamente ele tinha um lado, que não era o dos mercadores do templo e nem o dos exploradores dos mais pobres. Historicamente, diferente dos homens de sua época, se dispôs a ouvir e falar com as mulheres. Teologicamente tinha um propósito de salvação de almas e perdão dos pecados, lembrando-nos de que o que nos contamina e atrapalha nossa salvação é o que sai dos nossos corações. Para ele a verdadeira religião é amar a Deus e ao próximo.
Na Páscoa, os judeus comemoram a saída do povo judeu do Egito sob a liderança de Moisés. Jesus era judeu, os cristãos não são. Para os cristãos, na Páscoa relembramos a morte de Jesus e comemoramos sua ressurreição. Morrer e ressurgir pode ter muitos significados, dentre eles, a possibilidade de renovação de esperanças e de ânimo para um propósito de vida que talvez tenha um significado para além dessa nossa vida terrena, ou talvez tenha seu significado só nessa vida terrena mesmo.
Há um livro bem antigo cujo título é “Em seus passos, o que faria Jesus?”. Seu conteúdo pode estar desatualizado, mas essa pergunta, para aqueles que desejam ter na religião cristã um parâmetro de vida, é uma boa pergunta. Quem seriam os seguidores de Jesus hoje? Que comportamentos cotidianos Jesus nos indicaria? No que o cristianismo vivido nos torna mais próximos do exemplo e da vida de Jesus? O quanto os que se posicionam como cristãos realmente desejam essa proximidade?
É sempre bom lembrar que, assim como o sentido do Natal não pode estar no “Papai Noel”, o sentido da Páscoa não pode estar nos coelhos e no chocolate. Aproveitemos esse tempo para a reflexão sobre nossos passos por aqui, com a possibilidade, ou não, de uma vida eterna.
Monica Abrantes Galindo
É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo