OLHAR 360

No seu quintal

As ações iniciadas nos “quintais” próprios precisam encontrar eco nos “quintais” seguintes

por Monica Abrantes Galindo
Publicado há 4 horasAtualizado há 1 hora
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Em um trabalho a respeito de saúde e educação, marcou-me o exemplo de uma professora que percebeu que uma de suas aluninhas não conseguia agachar como as outras e comentou com os pais da menina. A família investigou e descobriu que havia ali um problema de saúde mais grave, que pôde começar a ser tratado. Não se trata, obviamente, de não compreender as diferenças de desenvolvimento individuais das crianças, mas de valorizar o olhar cuidadoso da professora, dentro do espaço privilegiado que é a escola, no qual convive um grupo grande de crianças da mesma idade.

O triste episódio recente da morte da PM Gisele Alves Santana inicialmente foi considerado um suicídio. Ela foi encontrada com um tiro na cabeça. Um dos socorristas que atendeu ao caso tirou fotos do local da ocorrência para preservar evidências, porque percebeu aspectos na cena que, por sua experiência em socorro, pareceram incompatíveis com a versão de suicídio apresentada pelo marido da vítima - um tenente-coronel. Foram esses registros, um dos elementos para que a polícia começasse a analisar a ocorrência de outra forma.

A dengue tem sido um problema gravíssimo de saúde pública que exige ações de diversos atores. Precisamos do desenvolvimento e da distribuição de vacinas, da eliminação dos mosquitos e do tratamento das pessoas infectadas. Um dos pontos importantes para o controle da proliferação do mosquito e consequentemente da doença é a eliminação da água parada no nosso próprio quintal.

No caso da escola, não me parece que havia ali pais ou famílias desleixadas, mas uma professora atenta que, por estar com outras crianças da mesma idade, tinha a possibilidade de perceber diferenças que as famílias não conseguem notar.

A foto do socorrista ajudou a mudar o rumo da investigação. Sua experiência, sua posição de socorrista e não de soldado hierarquicamente sujeito ao tenente-coronel e sua opção de não silenciar fizeram a diferença. Não sabemos o futuro do caso, mas hoje o marido de Gisele está sendo indiciado por feminicídio.

Tanto no caso do socorrista como da professora ou da limpeza dos nossos quintais, posições isoladas têm poucas possibilidades de efetivamente fazer diferença, mas podem ser disparadoras. As ações iniciadas nos “quintais” próprios precisam encontrar eco nos “quintais” seguintes. Médicos, policiais, famílias, investigadores, poder público, enfim, todos têm que fazer prosperar as ações em seus âmbitos próprios de atuação.

Uma atuação profissional ética, correta, responsável; uma palavra; uma ação; uma limpeza ou um ato cidadão podem fazer uma diferença positiva que muitas vezes nem ficaremos sabendo.

Em qualquer lugar, seja como profissional, familiar, cidadão ou amigo, todos nós temos um “quintal” - literal ou não - de atuação. Desde exemplos mais diretos como o combate à dengue até os mais complexos como a saúde das crianças e a violência contra as mulheres, será muito bom se cada um cuidar bem e fazer o que for necessário, no mínimo, no seu próprio quintal.

Monica Abrantes Galindo

É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos

Mulheres na Política e CDINN -Coletivo