My precious
O eleitor percebe quando o governante ou legislador passa a gostar mais do poder do que do trabalho que deveria realizar

Uma pequena reflexão sobre poder, política e o velho anel de Tolkien. Às vezes a literatura fantástica explica a vida real melhor do que muitos discursos políticos.
Li O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, há muitos anos e nunca esqueci um personagem em especial: Gollum, a criatura que chamava o anel de “my precious”, meu precioso.
Entre hobbits, elfos e batalhas épicas aparece essa figura curiosa e, de certo modo, muito humana. Mas Gollum nem sempre foi aquela criatura magra, desconfiada e meio desgrenhada que conversa sozinha nas cavernas. Antes era apenas Sméagol, um sujeito comum que teve o azar, ou talvez a tentação, de encontrar o famoso Anel.
O anel era pequeno, elegante e prometia poder. Nada muito diferente de certos cargos públicos que, vistos de longe, parecem responsabilidades administrativas.
Quem pensa possuir o anel acaba, com o tempo, sendo possuído por ele.
É difícil não perceber como essa metáfora continua atual. Basta trocar o anel por algo mais terreno: o poder político.
Quase sempre tudo começa muito bem. Prefeitos e vereadores surgem cheios de entusiasmo, ideias novas e discursos inspirados. Falam em servir à população, melhorar serviços públicos, cuidar da cidade e resolver problemas antigos. Apertam mãos, sorriem para fotos, caminham pelas ruas, tomam café em padarias e garantem que chegaram para fazer diferente.
No começo, acreditam mesmo nisso. E, para ser justa, muita gente também acredita. Mas o poder tem um magnetismo curioso. Aos poucos deixa de ser apenas ferramenta de trabalho e começa a ocupar espaço maior na cabeça de quem o exerce.
Primeiro vem o gosto pelas decisões importantes. Depois o prazer de ser ouvido nas reuniões. Em seguida, aparece a sensação de que tudo precisa passar por ali.
Quando se percebe, o cargo deixa de ser apenas função e vira quase uma extensão da personalidade. Talvez seja coincidência literária, mas a metáfora do anel parece funcionar bem quando se observam certos comportamentos da vida pública.
É nesse momento que surge o espírito do Gollum. Na história, Sméagol passa a olhar para o anel com carinho cada vez maior e começa a chamá-lo de “my precious”, meu precioso. O objeto deixa de ser apenas útil. Torna-se algo quase sentimental, que precisa ser protegido, guardado e defendido com enorme dedicação.
Na política, às vezes acontece algo parecido. O cargo, que deveria ser instrumento de trabalho, passa a ser tratado como patrimônio pessoal. Não é raro surgir aquele brilho especial no olhar quando alguém fala do próprio poder.
Enquanto isso, fora dos gabinetes, a realidade segue seu curso. As pesquisas de aprovação começam a oscilar. Primeiro uma pequena queda. Depois números mais desconfortáveis. Em algum momento, aquele entusiasmo inicial da população começa a virar impaciência.
Nas esquinas, nas feiras, nos cafés começamos a ouvir uma palavra que sempre aparece quando o humor político azeda: impeachment.
O eleitor percebe quando o governante ou legislador passa a gostar mais do poder do que do trabalho que deveria realizar. A genialidade de Tolkien foi mostrar que essa transformação nunca acontece de repente. Sméagol não acorda Gollum numa manhã qualquer. Essas mudanças começam quase invisíveis — um pequeno apego aqui, uma justificativa ali — até que, quando se percebe, o personagem já está completamente dominado pelo seu precioso.
Talvez por isso a velha história da Terra-Média continue tão atual. Na Terra-Média, quem se apega demais ao anel, metáfora do poder, raramente termina bem. Ainda dá tempo de consertar. Pense nisso.