Mulheres que movem a história
Quando penso nas mulheres que moveram a minha história, volto à minha avó, Elena. Aos 18 anos, deixou a Itália e atravessou o oceano sozinha, no início do século passado

Receber uma homenagem com esse nome - “Mulheres que movem a história”-, homenagem que me foi outorgada pela deputada estadual Beth Sayão, não é algo que se recebe sozinha. É algo que se carrega, como uma herança viva, feita de muitas vozes, muitos gestos e muitas histórias que vieram antes de nós.
Quando penso nas mulheres que moveram a minha história, volto à minha avó, Elena. Aos 18 anos, deixou a Itália e atravessou o oceano sozinha, no início do século passado.
Não havia garantias, não havia rede de apoio, havia coragem. Uma coragem silenciosa, daquelas que não pedem reconhecimento, mas que sustentam gerações inteiras.
Penso na minha mãe, Leonilda. Soprano, artista, mulher de sensibilidade rara. A vida não foi gentil com ela. A esclerose múltipla chegou, a viuvez também. Ainda assim, ela me criou sozinha. Com dignidade, com força, com uma delicadeza que nunca se perdeu, mesmo diante da dor. Foi com ela que aprendi que a força não precisa ser dura para ser inquebrantável.
Minhas tias paternas também me formaram.
Zizinha Fornari, professora, liderança em Monte Alegre do Sul, uma mulher à frente de seu tempo, que entendia a educação como instrumento de transformação.
Neneca Fornari me ensinou outra forma de resistência, a da suavidade. Diante da violência doméstica, respondeu com arte, pintando, compondo, criando beleza onde havia dor. Uma forma profunda de não se deixar endurecer pelo mundo.
Na escola pública de São Bernardo, encontrei outras referências fundamentais, professoras como Olga e Ana, que enfrentaram o preconceito de gênero quando isso ainda era naturalizado. Elas não apenas ensinavam conteúdos, ensinavam presença, posicionamento, coragem cotidiana.
Também não posso deixar de lembrar das freiras que, em um momento decisivo da história, retiraram seus hábitos e, ao lado de padres, se colocaram contra a ditadura. Elas me ensinaram que fé e justiça não caminham separadas e que, às vezes, é preciso romper até com o que nos define para defender o que é certo.
Na faculdade de medicina, tive a honra de aprender com a dra. Albertina, uma mulher firme, sempre ao lado da democracia, especialmente em momentos difíceis como a invasão da PUC. Ali, entendi que a medicina não se faz apenas com técnica, mas com posicionamento ético diante do mundo.
E ali também segue escrevendo sua própria história minha filha, Isadora de Cássia, moderna, alegre, criando estratégias para vencer na vida e superando, com coragem, as dificuldades do seu tempo.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.