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Olhar 360

Leia antes que a indiferença faça mais vítimas

por Jurandyr Bueno
Publicado em 08/07/2026 às 21:35Atualizado em 08/07/2026 às 21:39
Jurandyr Bueno (Jurandyr Bueno)
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Na saúde, a indiferença quase nunca se apresenta com crueldade explícita. Ela surge como uma fila que não avança, uma vaga inexistente, um recurso represado, uma decisão adiada, uma fiscalização insuficiente ou um conflito de interesses tratado como detalhe administrativo. Para quem espera um diagnóstico, uma cirurgia, uma quimioterapia ou uma internação, porém, cada atraso tem outro nome: "medo". E, em muitos casos, "perda".

É nessa fronteira entre a vida e a omissão que Henrique Prata escreveu “O Parque dos Lobos”, seu terceiro livro. Não é uma obra destinada a entreter. É um livro-denúncia, construído por alguém que conhece por dentro a realidade de uma saúde em que a fragilidade humana pode ser transformada em negócio, a dor reduzida a planilha e o paciente submetido a interesses que jamais deveriam se sobrepor ao dever de salvar vidas.

Prata escreve com a autoridade de quem, há mais de três décadas, está ligado ao fortalecimento do Hospital de Amor, em Barretos, uma das mais respeitadas instituições oncológicas do país. Ali, onde chegam brasileiros de todas as regiões carregando exames, medo, esperança e, muitas vezes, nenhum recurso além da própria fé, ele aprendeu uma lição que deveria constranger o Brasil inteiro: a doença não espera licitação, não respeita calendário político, não aguarda parecer técnico nem concede prazo para a burocracia se organizar.

Ou o paciente é atendido a tempo, ou a doença avança. É nessa fronteira brutal entre a vida e a omissão que nasce “O Parque dos Lobos”. O livro aponta uma perversão moral que precisa ser enfrentada sem hipocrisia: quando a saúde deixa de ser tratada como direito e passa a ser percebida como território de influência, lucro ou disputa de poder, quem paga a conta é sempre o mais fraco.

É a mãe que atravessa centenas de quilômetros com o filho doente. É o trabalhador que descobre que sua sobrevivência depende de uma fila. É o idoso que escuta que “não há vaga”. É a família que vende o que possui para comprar alguns dias a mais de esperança.

Essa é a brutalidade silenciosa que Henrique Prata expõe. O autor não denuncia apenas falhas administrativas. Denuncia uma cultura de insensibilidade. Denuncia a acomodação de quem aceita como inevitável que os pobres esperem mais, sofram mais e morram mais cedo. Denuncia o risco de estruturas que se apresentam como públicas serem conduzidas sob a influência de interesses privados.

O Parque dos Lobos incomoda porque recusa a anestesia. O gestor do HA não escreve para agradar. Escreve para despertar. Como toda acusação grave, suas afirmações devem ser examinadas com rigor. A obra é um convite ao Ministério Público e aos órgãos de controle a refletirem sobre uma questão inadiável: quais salvaguardas são necessárias para impedir conflitos de interesse e assegurar que instituições essenciais ao Sistema Único de Saúde não sejam capturadas pelo interesse privado?

Diminuir o poder dos “lobos”, na linguagem do livro, significa reforçar mecanismos de governança, prevenir a promiscuidade entre poder econômico e estruturas assistenciais e garantir que a saúde jamais seja subordinada a conveniências particulares.

E há uma verdade maior que atravessa as páginas de “O Parque dos Lobos” e não pode ser relativizada: o paciente não pode continuar sendo o último elo de uma cadeia de interesses. A doença já impõe sofrimento suficiente. O sistema não pode se transformar em mais uma enfermidade.

Há, na trajetória de Henrique Prata e do Hospital de Amor, uma lição que ultrapassa a Medicina. A grandeza de uma sociedade não se mede apenas pelo tamanho de sua economia. Mede-se pela forma como ela trata quem chegou ao limite da própria vulnerabilidade.

Ler “O Parque dos Lobos” é olhar para uma realidade que muitos preferem esconder. É compreender que corrupção, negligência e conflito de interesses produzem túmulos prematuros, famílias devastadas e silêncios que jamais serão integralmente reparados.

Este livro merece ser lido porque não fala apenas sobre hospitais. Fala sobre o tipo de país que estamos aceitando construir. E talvez sua pergunta mais dura seja também a mais urgente: quantas vidas ainda precisarão ser perdidas para que o Brasil compreenda que saúde não pode ser território de lobos?

Jurandyr Bueno

É jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor