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Jürgen Habermas (1929-2025)

por Andrew Okamura Lima
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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No último dia 14, o mundo perdeu uma de suas mais importantes vozes intelectuais: Jürgen Habermas. Filósofo alemão, nascido em 1929, na cidade de Düsseldorf, teve a infância marcada pelo autoritarismo e violência do regime nazista. Essa experiência influenciou de forma decisiva sua trajetória intelectual, despertando nele o interesse pelo estudo da democracia.

Habermas integrou a chamada segunda geração da Escola de Frankfurt, que teve como principais nomes Theodor Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin. Essa primeira geração desenvolveu uma crítica contundente à razão instrumental e à indústria cultural, apontando os mecanismos de alienação e o controle social produzidos por esses elementos na sociedade contemporânea.

Foi nesse contexto que Habermas surgiu como um elemento de renovação. Embora herde a preocupação crítica inerente à escola, ele se afastou do “pessimismo” de seus predecessores. Em seus escritos, procurou resgatar o potencial emancipador da razão, fundamentando-o no processo de comunicação. Para ele, o problema não seria a razão em si, mas na distorção de seu uso, quando subordinada a interesses econômicos ou de poder.

Estudou filosofia, história, psicologia, literatura alemã e economia nas universidades de Zurique, Bonn e Göttingen. Em 1953, publicou seu primeiro artigo de grande projeção, ao criticar a republicação da obra Introdução à Metafísica do filósofo Martin Heidegger. Em seu texto intitulado “Pensar Heidegger contra Heidegger”, ele apontou as incoerências de Heidegger, sobretudo sua adesão ao nacional-socialismo. No ano seguinte, defendeu seu doutorado na Universidade de Bonn, com a tese sobre “O absoluto e a história: As discrepâncias no pensamento de Schelling”. Entre 1956 e 1959, trabalhou diretamente com Adorno. Já na década de 1960, apresentou em Marburg seus primeiros escritos acerca da transformação estrutural da esfera pública. Ainda nesse contexto, passou a lecionar na Goethe Universität, consolidando-se como um dos principais representantes da Teoria Crítica.

Entre 1971 e 1983, foi diretor do Instituto Max Planck e ainda em 1983 retornou à função de catedrático no Goethe Universität, permanecendo na instituição até a sua aposentadoria, em 1994. A partir de então, atuou como professor visitante em diversas instituições como a Northwestern University e a New School for Social Research.

Seu pensamento dialogou com múltiplas tradições filosóficas. De Kant, Hegel e Marx, do qual, recuperou a noção de crítica como emancipação; de Wittgenstein, a centralidade da linguagem; e de Weber, quando repensou a teoria da formação de sistemas culturais de ação social. Uma de suas principais contribuições foi a articulação entre filosofia e ciências sociais na construção de uma teoria crítica da sociedade, que mais tarde evoluiu para a elaboração da teoria da ação comunicativa e da ética discursiva.

Sua primeira grande obra foi História e crítica da opinião pública (1962), onde investigou a formação da esfera pública, analisando o conceito de opinião pública em sua dimensão democrática. Nesse estudo, Habermas distinguiu a opinião pública manipulada, orientada por interesses econômicos e políticas, da opinião pública crítica baseada no debate racional.

Em seus estudos posteriores, dedicou-se à reconstrução do materialismo histórico diante das novas configurações do capitalismo. Ao mesmo tempo, aprofundou a teoria da ação comunicativa, orientando-se, principalmente, pela ética discursiva e defendendo a democracia deliberativa e os princípios do Estado de Direito.

Ao longo de sua carreira, Habermas destacou-se como um intelectual público, participando ativamente de debates políticos e defendendo os valores da democracia, tanto na Alemanha, quanto no âmbito da União Europeia. Suas ideias permanecem centrais nas discussões acerca da democracia, comunicação e ética.

Dono de extraordinária erudição, Habermas manteve-se como uma referência crítica diante das transformações do capitalismo contemporâneo. Buscou promover o entendimento entre perspectivas antagônicas e combateu, de forma firme, os diversos tipos de fundamentalismo. Em uma sociedade marcada pela rapidez e superficialidade do pensamento, sua lucidez fará muita falta. Contudo, sua obra permanece como um legado duradouro, oferecendo instrumentos de reflexão crítica sobre o mundo e suas estruturas.