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Olhar 360

Igor Thiago e a ponte sobre o abismo

por Jurandyr Bueno
Publicado há 2 horasAtualizado há 2 horas
Jurandyr Bueno (Jurandyr Bueno)
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No próximo dia 13 de junho, quando a Seleção Brasileira estrear na Copa do Mundo, milhões de olhares estarão fixos nos nomes escalados para representar o país. Entre eles, figurará Igor Thiago. Para a maioria, ele será apenas mais um atacante vestindo a camisa amarela; um produto bem-sucedido do inesgotável celeiro do futebol nacional.

A realidade, contudo, desautoriza a pressa dos clichês.

Muito antes dos contratos milionários na Europa, existiu um menino que perdeu o pai aos 13 anos e enfrentou a urgência de amadurecer cedo demais. A trajetória de Igor Thiago não cabe na narrativa confortável da superação individual, uma fórmula conveniente que transforma o sofrimento em espetáculo para que a sociedade admire o vencedor sem precisar encarar os que ficaram pelo caminho.

Sua história importa porque desmonta uma ilusão: o talento nunca caminha sozinho.

Antes do Cruzeiro, do Brentford e da Seleção, houve o Grêmio Ocidental, um projeto social em Cidade Ocidental, no entorno do Distrito Federal. Houve um campo de terra, uma rotina e a obstinação do treinador Sérgio Gonçalves Silva.

Igor chegou ali aos oito anos de idade. E encontrou pertencimento, disciplina e perspectiva. Não se trata de uma peça publicitária travestida de responsabilidade social, mas de permanência. E a permanência é o que separa a esperança da desistência.

O Brasil costuma celebrar seus prodígios tarde demais, quando a camisa ganha patrocinadores e o passe vale milhões. Projetos sérios chegam antes. Chegam quando a chuteira está rasgada, quando o transporte falta e quando ninguém está olhando.

Essa é a fronteira exata entre o discurso social e a transformação. O discurso produz cerimônias e depende da visibilidade; a transformação entrega presença e exige compromisso.

O Grêmio Ocidental, projeto que nasceu em 1997, nos comprova que uma ponte bem construída altera o destino de uma vida. Iniciativas honestas não existem para fabricar celebridades, mas para devolver possibilidades a quem nasceu cercado de impossibilidades.

Há milhares de crianças talentosas espalhadas pelo país. O que lhes falta não é potencial; é estrutura, continuidade e proteção.

Por isso, quando recursos destinados à infância são desviados, ou quando projetos sociais são sequestrados como vitrines políticas, não testemunhamos meras irregularidades administrativas. Estamos diante de uma tragédia moral. Trata-se da forma mais cruel de corrupção: aquela que não rouba apenas dinheiro, mas sepulta versões inteiras de cidadãos que jamais chegarão a existir.

Em poucos dias, o país cantará o hino nacional, renovando a mística de que o talento brasileiro tudo supera. É um autoengano perigoso. O talento sem oportunidade vira frustração; sem orientação, vira desperdício; sem uma ponte, transforma-se em estatística.

Igor Thiago chegou ao topo. Que jogue bem e honre os que nele acreditaram quando seu nome nada significava para o mercado. Mas a verdadeira homenagem que o país deve prestar à sua trajetória não reside no aplauso. Está na capacidade institucional de financiar, fiscalizar e multiplicar as travessias para os que ficaram na margem.

O talento nasce todos os dias. As pontes, infelizmente, não.

Jurandyr Bueno

É jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor