Feliz Apocalipse Novo
Vivemos em um mundo com nove potências nucleares, mais de 12 mil ogivas ativas e um nível de instabilidade que faz a Guerra Fria parecer uma desavença de condomínio

Enquanto a classe média cumpria o rito previsível de pular ondas e renovar promessas que quase nunca sobrevivem ao mês de janeiro, a ultraelite global começou 2026 com um propósito revelador. O fetiche do momento não é uma cobertura mais exuberante em Manhattan, mas estruturas subterrâneas, herméticas, projetadas para suportar explosões inimagináveis e abastecidas com estoques de feijão enlatado suficientes para garantir cinco anos de isolamento.
Há algo profundamente perturbador nesse movimento. O que Mark Zuckerberg faz ao enterrar US$ 270 milhões em uma propriedade blindada no Havaí; o que Peter Thiel busca ao tentar converter as margens do Lago Wanaka em refúgio soberano na Nova Zelândia; e o que Jeff Bezos ensaia, oscilando entre sua ilha-fortaleza em Miami e a fantasia de êxodo orbital em Serra Diablo, no Texas, não é planejamento contigencial. É a escolha deliberada de abandonar o projeto coletivo de civilização.
Reconheça-se: o contexto não é irrelevante. Vivemos em um mundo com nove potências nucleares, mais de 12 mil ogivas ativas e um nível de instabilidade que faz a Guerra Fria parecer uma desavença de condomínio. O Relógio do Juízo Final avança não por alarmismo, mas por cálculo científico. O risco é real. A resposta, contudo, é moralmente falida.
A Terra, que já atravessou cinco extinções em massa muito antes de nossa espécie ter a pretensão de existir, seguirá seu curso geológico com ou sem esses refúgios de luxo que revelam nada além do que uma falha intelectual grave. Seus defensores parecem acreditar que o colapso civilizatório será apenas um contratempo logístico. Bastaria hibernar por alguns anos, consumir provisões cuidadosamente calculadas e então retornar à superfície. A ciência, porém, insiste em estragar a fantasia. Um inverno nuclear comprometeria a agricultura global por décadas. Sem alimentos, não há sociedade possível. Nem elite. Nem ultraelite.
O bunker de luxo, portanto, não é uma apólice de seguro existencial; é apenas um camarote ligeiramente mais confortável para assistir ao funeral da própria espécie.
A lógica da fortificação privada ainda ignora um dado histórico elementar. As sociedades que resistem às grandes crises não são as mais armadas, mas as mais coesas. Não é o isolamento que protege, mas o vínculo. Não é o muro que sustenta a vida, mas a confiança mútua, a cooperação, a redução das desigualdades e o investimento em saúde, educação e cultura da paz.
Colocar bilhões em concreto compra silêncio e solidão. Direcionar esses mesmos recursos para diminuir abismos sociais compra estabilidade. A diferença entre um caminho e outro não é técnica. É ética.
No entanto, nossos titãs da tecnologia preferem a engenharia do medo. Financiam algoritmos que incendeiam o debate público durante o dia e, à noite, assinam cheques para a construção de abrigos contra o fogo que eles mesmos ajudaram a espalhar. São piromaníacos comprando extintores banhados a ouro.
Chegamos a 2026 com essa contradição exposta. Desejamos esperança, mesmo sabendo que uma parcela influente do poder global já não acredita nela. Enquanto alguns desenham futuros subterrâneos, resta a mim e a você, caro leitor, insistir no que sempre funcionou: manter a superfície habitável, fortalecer laços humanos e defender a ideia de que ninguém se salva sozinho.
Jurandyr Bueno
Jornalista, especialista em Relações Governamentais e consultor de projetos para o Terceiro Setor