Educação pública: entre o substantivo e o verbo
Quando quem governa não entende a diferença entre ensinar conteúdo e impor comportamento, o problema já não é a escola. É cognitivo

Quando um governo não sabe como enfrentar o problema central da educação, costuma trocar método por encenação. Em São José do Rio Preto, essa encenação agora vem fardada. O modelo de escolas cívico-militares é apresentado como solução, quando na verdade funciona como atalho narrativo para problemas que exigem política educacional séria, continuada e baseada em evidências.
Se esse modelo fosse comprovadamente superior em aprendizagem, ele já teria sido adotado pelas escolas de melhor desempenho do país. Não foi. Nenhuma rede de excelência, pública ou privada, trocou projeto pedagógico por disciplina militar. E não se trata de ideologia.
Trata-se de pragmatismo. Quem vive de resultado não aposta em símbolo, aposta em método. As escolas que entregam bons resultados fazem o básico bem feito. Investem em professores
bem formados, currículo consistente, avaliação frequente, reforço estruturado, acompanhamento individual e gestão pedagógica orientada por dados. Nada disso exige farda.Exige competência técnica e continuidade administrativa.
O modelo cívico-militar parte de uma confusão conceitual perigosa: vende ordem como se fosse aprendizagem. Silêncio em sala não é leitura competente. Disciplina rígida não é raciocínio matemático. Obediência não desenvolve pensamento crítico.
Educação de qualidade forma autonomia intelectual, não submissão. Nesse contexto, vale atenção a uma matéria publicada neste Diário no último fim de semana, que mostrou São José do Rio Preto fora, pelo segundo ano consecutivo, da lista de municípios habilitados a receber recursos do VAAR, a parcela do Fundeb vinculada à melhoria de indicadores de aprendizagem e à redução de desigualdades.
O dado não tem relação direta com a implantação de escolas cívico-militares. Mas ajuda a entender o ambiente político em que esse modelo surge: quando a rede como um todo não melhora seus indicadores, cresce a tentação de criar casos isolados de sucesso para sustentar discursos de eficiência.
O risco é evidente. Ao concentrar determinado perfil de alunos em uma escola específica, o poder público pode, mais adiante, afirmar: “viram como funcionou?”. Mesmo que o restante da rede tenha piorado. Mesmo que a melhora seja apenas relativa. Mesmo que não haja qualquer comprovação de causalidade entre o modelo adotado e os números apresentados.
Nesse caso, a escola cívico-militar apenas melhora a estatística do próprio modelo. Educação pública, porém, não pode escolher quem vai ensinar, nem pode ser avaliada por recortes convenientes. Esse tipo de arranjo é conhecido como “gaming the system”. Ajusta-se o sistema para performar melhor nos indicadores, não para entregar melhores resultados sociais.
É aqui que o modelo cívico-militar se torna duplamente problemático. Primeiro, porque o ponto central permanece incontornável: não há comprovação científica robusta de que escolas cívico-militares melhorem aprendizagem. Segundo, porque, ao ser implantado em um contexto de perda de recursos por desempenho, ele pode funcionar como atalho estatístico, não como solução educacional.
Política pública não pode ser guiada por aventuras, e educação não pode ser laboratório de vaidades. No fim das contas, o debate é menos ideológico e mais básico. Precisamos investir em modelos de educação que comprovadamente melhoram aprendizagem para todos.
Caso contrário, seguiremos produzindo gestores públicos que exploram o cansaço das famílias diante do abandono educacional, e que são incapazes de distinguir o substantivo disciplina (matemática, português, ciências) do verbo disciplinar, terceira pessoa do singular do presente do indicativo. E quando quem governa não entende a diferença entre ensinar conteúdo e impor comportamento, o problema já não é a escola. É cognitivo.
Beto Braga
É empresário