É errado fazer a coisa certa pelos motivos errados?
É errado abraçar uma causa justa apenas porque ela é a tendência do momento? É errado vocalizar a opinião correta por medo da exclusão do grupo? E, mais do que isso: há diferença entre expor uma boa ação para multiplicar o bem e profanar a fragilidade alheia para erguer um monumento ao próprio ego?

Pense antes de responder.
Uma pessoa doa alimentos a quem tem fome, mas filma a entrega em detalhes para conquistar seguidores. Um empresário financia uma escola, mas calcula detalhadamente o retorno institucional para sua marca. Um político apoia uma medida indispensável, mas mira exclusivamente nas urnas. Uma celebridade socorre uma entidade filantrópica, mas busca reerguer a própria imagem em ruínas.
Todos, sem exceção, fizeram a coisa certa. Mas o fizeram pelas razões certas?
Essa provocação, longe de ser um mero exercício teórico, foi lançada a jovens do mundo todo pela John Locke Essay Competition, no Reino Unido. E foi a partir de Catanduva que veio uma das respostas mais instigantes. O ensaio de Clara Sizinando, de apenas 16 anos, aluna do Colégio Ressurreição, atravessou bancas de rigor intelectual extremo para alcançar a fase final da competição global.
Promovido pelo John Locke Institute, o certame não premia repetições dogmáticas ou a pirotecnia de palavras bonitas. Exige o oposto: a maturidade do raciocínio próprio, a clareza argumentativa para encarar objeções e a coragem de habitar dilemas que não oferecem saídas confortáveis.
Por isso, o feito de Clara transcende o mérito acadêmico. Ele nos devolve algo que o nosso tempo insistia em declarar obsoleto: a dignidade do ato de pensar.
Vivemos sob a ditadura da reação imediata. Diante do fluxo ininterrupto de conteúdos em telas reluzentes, exige-se do leitor o veredito instantâneo: amar ou odiar, absolver ou cancelar. A dúvida - que durante séculos figurou como a porta de entrada da sabedoria - passou a ser encarada como hesitação ou fraqueza. Quem reflete, perde espaço. Quem simplifica, viraliza.
Nesse tribunal contínuo, as fronteiras entre o que é empatia genuína e o que é mera vaidade perdem a clareza. É errado abraçar uma causa justa apenas porque ela é a tendência do momento? É errado vocalizar a opinião correta por medo da exclusão do grupo? E, mais do que isso: há diferença entre expor uma boa ação para multiplicar o bem e profanar a fragilidade alheia para erguer um monumento ao próprio ego?
A questão que Clara enfrentou é demolidora porque impede o refúgio das certezas prontas.
Em um cenário saturado de vozes que gritam para mascarar o vazio do que têm a dizer, a jovem catanduvense conquistou projeção global justamente pelo caminho inverso: deu-se ao trabalho de silenciar e pensar antes de formular.
É aí que reside a verdadeira emoção da sua conquista. Clara nos prova que a inteligência crítica não foi soterrada pelos algoritmos. Ela continua viva, pronta a emergir quando provocada, cultivada e valorizada. Em um mundo viciado em contar seguidores e medir relevâncias por métricas de engajamento, a jovem fez valer o peso silencioso de um bom argumento.
No fim das contas, a provocação permanece à nossa espera, nos cobrando uma escolha diária: “É errado fazer a coisa certa pelos motivos errados?”
Talvez seja infinitamente melhor produzir algum bem por razões imperfeitas do que cruzar os braços sob o pretexto da pureza moral. O pragmatismo socorre o presente.
Mas sempre terei comigo a convicção de que é o ato de buscar a coisa certa, pelas razões certas, que define a pessoa que escolhemos ser.
Jurandyr Bueno
Jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor