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Olhar 360

Dois pais, duas pátrias e matemática para três

por Fernando Fukassawa
Publicado em 10/08/2026 às 21:19Atualizado em 10/08/2026 às 21:21
Fernando Fukassawa (DIARIO)
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Quando ficou grávida, Aisha era absolutamente fiel aos seus dois amantes Ahmad e Hassan, amigos desde quando vieram do Líbano. O relacionamento trisal era em formato “V”: ela se relacionava com os dois, mas estes não tinham envolvimento romântico ou sexual entre si. Tudo transparente, harmônico, sem segredos.

Logo que soube daquela gestação, Hassan viajou para ficar dez meses fora. Dizia ser o tempo necessário para acertar antigas pendências de terras da família no Vale do Bekaa.

No retorno, foi efusivamente recebido no aeroporto por Ahmad que, após os fraternais abraços e salamaleques, explicou que estava ao mesmo tempo feliz e profundamente triste. Contou da gravidez, como se novidade fosse, e que Aisha dera à luz gêmeos...“um filho seu,... e outro meu”, e emendou entre lágrimas de crocodilo: “o meu infelizmente passou pela “Dunya” e foi eternamente para os braços de Alá”! “Mas o seu, ...o seu” – disse abrindo agora um largo sorriso: “é um bebê que é a sua cara, é muito forte e bonito, parabéns”!

Essa história me foi contada faz tempo em “stand-up” no quintal comum do Kiberama e do Café Conte. Teve por testemunha o saudoso padre Nicolau da Igreja Ortodoxa Antioquina, que, por não contestar a veracidade da narrativa, lhe conferiu boa e total credibilidade. Podia parecer anedota e ficção. Afinal, teimamos em acreditar que o mundo funciona segundo alguma lógica razoável.

Lembrei-me disso porque a natureza executa acrobacias estatísticas quase impossíveis, em uma combinação cósmica entre azar, precisão e senso de humor biológico. Pois não é que aconteceu, algum tempo depois, em 2018, na Colômbia? Uma grávida buscou confirmar a paternidade e o resultado foi espantoso: os gêmeos eram de pais diferentes - a chamada superfecundação heteropaternal.

O experiente diretor do laboratório explicou que, para isso, a mãe precisa ovular duas vezes, ter dois parceiros sexuais em curtíssimo espaço de tempo e ser fecundada em ambos os atos. Dois homens distintos, dois DNAs. Dois resultados incompatíveis convivendo pacificamente dentro da mesma gravidez. Seria como ganhar duas vezes seguidas na loteria com bilhetes comprados em cidades distintas.

Os cientistas ficaram fascinados e incrédulos. Em décadas de trabalho nunca haviam testemunhado um caso semelhante. Descobriram, na prática, que laboratórios de genética vivem mergulhados em probabilidades microscópicas e coincidências hereditárias improváveis. Ainda assim, diante do laudo, os pesquisadores reagiram como quem presencia um eclipse dentro do elevador.

Existe um limite psicológico para aquilo que até mesmo a ciência está preparada para anunciar. Informar a alguém - como fez Ahmad a Hassan - que ele é pai de apenas um dos gêmeos talvez figure entre as frases mais desconfortáveis já produzidas pela genética moderna. A situação parece escrita por um roteirista excessivamente criativo, desses que recebem críticas por exagerar no melodrama. Humanos observam o fenômeno com o espanto típico de quem passou séculos acreditando que a reprodução era um sistema relativamente organizado. De repente, veem o DNA virar uma espécie de testemunha ocular daquilo que a realidade preferia manter discretamente ambíguo.

O caso é fascinante e desmonta nossa obsessão por linearidade. Gostamos de imaginar que eventos extraordinários obedecem a causas igualmente extraordinárias. Mas, ali, tudo dependeu apenas de uma sequência improvável de pequenas coincidências biológicas. Nenhum milagre. Nenhuma ficção científica. Apenas eventos raros empilhados uns sobre os outros até produzirem o impossível.

O universo parece desenvolver um prazer quase artístico em escolher justamente os cenários menos prováveis para demonstrar isso. É preciso esclarecer, contudo, que tais prodígios nuncam geram gêmeos idênticos, os quais dependem de um único óvulo e um só espermatozoide.

Apesar do indisfarçável interesse dos acadêmicos em decifrar as circunstâncias daquela superfecundação, a ética científica os impede de questionar a vida íntima das pessoas. Aqui ou no Líbano. “As-salamu alaykum”!

Fernando Fukassawa

Advogado, professor de direito e promotor de Justiça aposentado