Coerência zero
O direitista de Instagram transforma-se, por um passe de mágica, no maior taxador que a história recente da cidade já viu

Há uma figura curiosa ocupando o paço municipal. Durante a campanha e nas redes sociais as manifestações eram empunhando a bandeira do Brasil com frases de efeito sobre liberdade e família. O então candidato se dizia o guardião dos valores, o antídoto contra o "esquerdismo" local, o braço da moralidade contra relações políticas espúrias.
No entanto, ao cruzar a porta do gabinete, aparentemente uma transformação aconteceu. O direitista de Instagram transforma-se, por um passe de mágica, no maior taxador que a história recente da cidade já viu.
Se na campanha o atual prefeito vociferava contra empréstimos da gestão anterior e mau uso de dinheiro público, ao assumir parece ter descoberto que a melhor forma de proteger o patrimônio das famílias é esvaziando seus bolsos.
O aumento extorsivo de impostos não é visto como arbítrio, mas como "ajuste fiscal necessário". O IPTU sobe e o contribuinte, aquele mesmo que votou acreditando na promessa de uma gestão mais eficiente, recebe a conta do IPTU com um carimbo de "patriotismo". Em nossa cidade precisamos reconhecer a singular ocorrência de um Prefeito Coronel que pode ser chamado de “Fernando Haddad de Rio Preto”.
Temos também a questão das alianças. Em campanha o discurso era de varrer a velha política, de acabar com os conchavos e afastar figuras que sempre dominaram os bastidores. Mas, uma vez eleito, a memória se tornou seletiva. Para garantir a governabilidade, o moralista de plantão abraça quem fortemente criticou na campanha.
Aliados locais, cujos históricos seriam motivo de investigação, tornam-se parceiros indispensáveis desde que entreguem os votos na Câmara Municipal. A direita, nesse cenário, vira apenas uma estética, um figurino que se tira quando a governabilidade exige o traje da velha política.
E o que dizer das promessas? Aquelas feitas com a mão no peito e firmeza de discurso? Elas parecem ter validade apenas durante o período eleitoral. O ajuste administrativo foi esquecido, a saúde virou fila de espera e até mesmo a combatida “indústria de multas” vai ser retomada e de forma pior que na gestão anterior. Quando cobrado, o silêncio é a arma preferida. Um gestor que se diz aberto ao povo, na prática, constrói muros ao redor de sua cadeira.
O diálogo, palavra tão cara à democracia, é tratado como ofensa. Quem questiona uma decisão, quem aponta uma contradição, quem ousa discordar minimamente, não é tratado como cidadão fiscalizador, mas como inimigo a ser silenciado. Bloqueios em redes sociais, portas fechadas na prefeitura e desdém em entrevistas são a resposta para quem pede transparência e melhorias. O defensor da liberdade de expressão parece não suportar que usem essa liberdade para criticar sua gestão.
No fim, o que resta é a constatação de que o rótulo não cola. Ser “de direita", nesse contexto, virou apenas uma estratégia de marketing, uma tribo para angariar votos, sem qualquer compromisso com a ideologia política que o termo carrega. Na prática, a gestão é um híbrido estranho: a retórica inflamada da direita com a prática tributária e aliancista da esquerda e do fisiologismo mais tradicional.
O prefeito não é de direita, nem de esquerda. Ele é do centro gravitacional do poder. Onde o vento sopra a favor, ele hasteia sua bandeira verde e amarela. Onde o bolso aperta, ele aperta o parafuso do contribuinte. E onde a crítica incomoda, ele fecha a cortina. O cidadão fica, então, com a conta alta, a promessa quebrada e a dúvida: será que ele governa para a cidade ou apenas para manter o personagem vivo no próximo ciclo eleitoral? A coerência, essa, parece ter sido a primeira vítima desde a posse.
Marco Feitosa
Advogado e coordenador do Estado de São Paulo do Movimento Livres