Calados pelo próprio aplauso
A servidão voluntária de que falava La Boétie deixou de ser metáfora: virou política pública com apoio popular

Não é preciso um tirano de farda para matar a liberdade. Basta um juiz e um povo que aprendeu a delatar. O Estado moderno descobriu algo que nenhum déspota antigo sonhou: não precisa arrombar sua porta se conseguir convencer seu vizinho a fazê-lo de graça, e ainda por cima orgulhoso do serviço.
É esse o rosto da opressão no Brasil de hoje. Não a bota, mas o algoritmo obediente. Não o porão, mas a moderação. Não o censor de casaca, mas o cidadão comum que exige, em nome do bem e da virtude, que calem quem pensa diferente. A servidão voluntária de que falava La Boétie deixou de ser metáfora: virou política pública com apoio popular.
E o combustível dessa máquina é a ignorância, não como xingamento, mas como diagnóstico. Um povo a quem se negou educação e o hábito de pensar por si não debate: obedece a manada. Não examina ideias: fareja inimigos. Onde deveria haver argumento, há linchamento. Onde deveria haver dúvida, há palavra de ordem. E uma população que não sabe pensar sozinha sempre encontrará alguém disposto a pensar por ela, de preferência alguém com uma toga, um decreto e uma conta bancária pública.
Os fatos não deixam mentir. Em junho de 2026, o Supremo Tribunal Federal, por meio de onze pessoas que ninguém elegeu, impôs às plataformas um dever de cuidado, obrigando-as a remover conteúdo sob ameaça de punição, usurpando a função de um Congresso que se calou covardemente. Antes, pautou o Tema 837 para redefinir os limites da liberdade de expressão a partir de uma birra sobre críticas a um rodeio. E, em 2024, uma rede social inteira foi desligada do país pela caneta de um só homem. Isto não é Estado de Direito: é o arbítrio de sempre, agora vestido de virtude.
O libertário não pergunta se o conteúdo censurado é bom ou ruim. Essa é a armadilha em que caem os ingênuos. A pergunta é outra, e é a única que importa: quem lhe deu esse poder? Toda censura se anuncia como proteção. Todo tirano jura defender o vulnerável. O Leviatã nunca se apresenta dizendo "vim tomar sua liberdade", ele diz "vim protegê-lo do ódio, da mentira, do perigo". E a plateia, ignorante e incapaz de desconfiar, bate palmas para as próprias correntes.
Porque é isso que a massa faz: aplaude. Terceiriza o juízo ao juiz, ao influenciador, ao partido, à tribo e depois defende com fúria de convertido aquilo que jamais teve capacidade de examinar.
Murray Rothbard já havia desmontado o truque: nenhum Estado se sustenta só pela força, precisa de intelectuais de aluguel que convençam o rebanho de que a coleira é colar. Hoje esse papel cabe à toga solene e ao influenciador de plantão. A truculência do debate nacional não é defeito do sistema; é o sistema funcionando. Um povo que confunde gritar com raciocinar é a matéria-prima perfeita de qualquer autoritarismo.
Dirão que é para conter a desinformação, para proteger os frágeis. Sempre dizem. Mas nenhum homem jamais ficou livre por ter sido poupado do erro por um tutor. Ou o indivíduo é dono da própria cabeça, inclusive do direito de estar redondamente errado, ou não é dono de nada. Não existe meia liberdade, assim como não existe meia algema.
A liberdade de expressão jamais existiu para as ideias confortáveis. Essas nunca correram risco. Ela existe para o incômodo, o herege, o inconveniente. Uma sociedade que só suporta o coro não é livre, na verdade é rebanho bem treinado. E rebanho, por definição, marcha para onde o pastor aponta, até o dia em que descobre, tarde demais, para onde estava indo.
Marco Feitosa
Advogado e coordenador do Estado de São Paulo do Movimento Livres