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Olhar 360

As 'fakes', as 'trues' e as 'hiddens'

O ideal é que não tivéssemos nenhum assalto, mas a situação real das nossas vidas e comunidades não é essa, por motivos diversos

por Monica Abrantes Galindo
Publicado há 6 horasAtualizado há 6 horas
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Em um jornal de TV, o assunto foi o aumento dos casos de assaltos no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foi uma reportagem relativamente longa. Em 2025 foram 116 casos registrados de furto ou tentativas de assalto. Sobre o número de frequentadores do parque, só encontrei dados do primeiro trimestre de 2025: 4,1 milhões de visitantes de janeiro a março. Em 2024 foram 16,6 milhões de visitantes no ano.

O ideal é que não tivéssemos nenhum assalto, mas a situação real das nossas vidas e comunidades não é essa, por motivos diversos. É preciso, nesse sentido e nesse contexto, ler esses números. Se foram 116 casos, isso significa aproximadamente 10 casos por mês. Para um parque que tem em média 1 milhão de frequentadores mensais, 10 casos de assalto continua sendo um número triste, mas bem menos alarmante do que a reportagem nos fez parecer.

O número de assaltos a farmácias também aumentou muito nos últimos anos. O objeto de desejo principal dos assaltantes são as canetas emagrecedoras. Canetas caras e muito procuradas. O que não perguntamos é por que temos precisado tanto dessas canetas? Quando foi que comer virou um problema? O que esse padrão de beleza magro tem a nos dizer e a movimentar comércios, desejos e ações ilícitas?

O combate ao tráfico de drogas ilícitas é divulgado principalmente nas ações nas estradas, nos bairros periféricos, nas favelas. A chamada “Cracolândia” em São Paulo, na região do centro, não existe mais.

Os motoristas dos caminhões e os distribuidores das drogas são presos com mais facilidade. Difícil é prender os grandes financiadores dos grandes carregamentos. Difícil também falar dos outros consumidores de drogas, além dos usuários de crack. A “Cracolândia” é matéria de reportagem. As festas “bacanas” regadas a drogas caras, nunca são.

A atuação para o fim da “Cracolândia” em São Paulo e consequente “limpeza” das ruas, significou também que um apartamento de aproximadamente 30 metros quadrados - que antigamente se chamava quitinete e que hoje é “loft” ou “studio”-, está na faixa dos 600 mil reais em um prédio em construção nessa região.

As chamadas “fake news” são sem sombra de dúvidas um grande problema, mas as mentiras sempre existiram. As “true news” - notícias verdadeiras, com dados confiáveis - entretanto não são sozinhas a nossa salvação em relação às possibilidades de entendermos um pouco melhor os contextos e as relações que nos envolvem nessa nossa sociedade tão complexa. Todas as “news” têm “hidden news” – notícias que nos foram escondidas sobre o tema em questão. Precisamos de “true news” aliadas a uma capacidade de lê-las de verdade, de buscar outras fontes, de elaborar outras perguntas, de fazer contas, de saber de onde elas vêm, a quem elas interessam e de perceber os recortes que nos estão sendo oferecidos.

Para além da mentira pura e simples, precisamos exercitar enxergar a partir das “true news”, o que pode não ser “fake”, mas que, propositalmente, pode estar sendo “hidden”.

Monica Abrantes Galindo

É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo