Aqui se faz, aqui se paga e se recebe
Neste artigo, remeto à obra do português José Saramago (1922–2010) intitulada “As Pequenas Memórias”, em que ele revisita sua infância e presta uma das mais belas homenagens literárias aos avós

Neste artigo, gostaria de surpreender meu leitor, com um tema aparentemente bem distante de outros tantos anteriores, onde a crítica jurídica e a crítica política ocuparam a centralidade, com até uma certa acidez e desencantos, que se justificavam pelos fatos abordados, mas também por aquilo que me autodefino: um cético esperançoso.
A finitude de nossa existência e a dúvida do que sobrevém a ela é daquelas coisas que nos angustiam e, bem por isso, num dos livros que publiquei (Gargalos da Segurança Pública: uma abordagem política, sociológica e de direito comparado, 2022), pela Editora HN, do amigo e colunista do DIÁRIO, João Paulo Vani, apresentei a seguinte dedicatória: “À memória de meu querido pai, Azor Lopes da Silva (21/11/1935 - 28/01/2021), orgulhoso ex-Soldado da Força Pública de São Paulo, com quem não posso mais conversar nas manhãs dos sábados, e àqueles que dão a ele – e darão a mim – a certeza de continuidade: meus amados netos: Alana (04/07/2022) e Elias (17/07/2020). O autor. 18 de agosto de 2022”.
Sim, a dedicatória é datada exatamente no dia de meu aniversário e, sim, escrevo este artigo agora, no exato dia do aniversário de minha neta Alana e às vésperas da data de nascimento de meu primeiro neto, Elias. Sim, “minha Alana” sequestrou todo o meu coração, mas antes dela e mesmo antes de seu nascimento, ao fim de minha pesquisa em pós-doutorado (Unesp, 2020), sob a orientação de meu amigo – o professor doutor Gentil de Faria – o primogênito Elias é que foi homenageado naquela dedicatória: “Dedico esse trabalho ao meu primeiro neto: Elias... Ainda não te conheço, mas já te amo. ‘Em verdade Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará...’ (Marcos 9:12)”.
Não se trata de sentimentalismo casual ou mudança de estilo, até porque em duas obras anteriores – para as quais fui convidado por Gentil – minha veia literária pulsou. Na primeira delas abordando a essência humana trazida por Willian Shakespeare (O Mercador de Veneza), a partir dos embates éticos entre o apaixonado mercador Bassânio e o avarento judeu Shylock.
Na segunda, reverenciando a genialidade excêntrica do brasileiríssimo Ariano Villar Suassuna, a partir de uma de suas obras menos conhecida (A pena e a lei; 1971), em que o “Cavaleiro do Sertão” mostra uma trama onde, ao final e em fila, os defuntos procuram culpados por suas mortes. Cheiroso (o Cristo) lhes pergunta: 'Vale a pena fazer parte da vida, sabendo que a morte é inevitável?'. Ao final, quando todos abrem a consciência, ele conclui: “Erros, cegueiras, embustes, enganos, traições, mesquinharias, tudo o que foi a trama de suas vidas, perde a importância de repente, diante do fato de que vocês acreditaram finalmente em mim e diante da esperança que acabam de manifestar”.
Neste artigo, remeto à obra do português José Saramago (1922–2010) intitulada “As Pequenas Memórias”, em que ele revisita sua infância e presta uma das mais belas homenagens literárias aos avós. Do avô Jerômino, diz Saramago: “Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer”.
Segurava as mãos do velho Azor quando se despedia da vida, mas antes pude ver aquelas suas mãos segurando Elias; meu sogros João e Cida seguraram Matheus nos colos, porém Thaís, só João teve tempo...
Sou grato, por estar com vocês, Alana e Elias, por mais alguns – sabe-se lá – tantos outros aniversários e, da obra de Saramago, tomo a fala da avó Josefa: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer”...
Azor Lopes da Silva Júnior
Advogado, professor de direito e coronel da Polícia Militar