Agilulfo e o triunfo da estupidez
As plataformas não inventaram a estupidez, o ressentimento ou a pulsão pelo linchamento. A história humana dispensa smartphones para demonstrar nossa secular vocação para a intolerância

Um personagem concebido por Valter Hugo Mãe em "O Século dos Imbecis" experimenta uma metamorfose geográfica singular: torna-se lúcido à medida que escala uma montanha e progressivamente obtuso conforme desce ao vale. O detalhe verdadeiramente trágico (e desconfortavelmente cômico) não reside em sua oscilação cognitiva, mas na recepção da plateia: é na sua versão intelectualmente rebaixada que ele encontra aplauso, acolhimento e validação social. Eis o arquétipo definitivo da nossa era digital: chama-se Agilulfo.
Ao transportar o personagem do escritor português da literatura para a arena das redes sociais, a ficção deixa de ser apenas metáfora e passa a operar como diagnóstico quase documental. No ecossistema informacional contemporâneo, a descida à planície ganhou métricas de vaidade, a regressão virou performance e o embrutecimento, finalmente, encontrou um modelo de negócios altamente lucrativo.
As plataformas não inventaram a estupidez, o ressentimento ou a pulsão pelo linchamento. A história humana dispensa smartphones para demonstrar nossa secular vocação para a intolerância. A ruptura civilizatória é de outra ordem: construímos uma infraestrutura global capaz de identificar, em tempo real, quais fraquezas morais e cognitivas retêm nossos olhos na tela, para, então, distribuí-las em escala industrial.
O algoritmo não tem compromisso com a verdade; sua lógica econômica é a retenção. Não lhe interessa se uma afirmação é verdadeira, mas se provoca reação. Não distingue reflexão de charlatanismo; calcula atrito, permanência, compartilhamento. E nada engaja com tanta fidelidade quanto o medo, a indignação performada e o conflito deliberado.
No topo da montanha, Agilulfo pensa devagar, pondera variáveis e convive com a dúvida. Tudo aquilo que possui desempenho comercial desastroso na chamada "economia da atenção". No vale, simplifica, vocifera e oferece certezas pré-fabricadas.
Uma análise exige contexto; a mentira precisa apenas de impacto. A explicação científica requer método e tempo; o delírio conspiratório cabe confortavelmente em um "corte" de 15 segundos. O pesquisador pondera que os dados disponíveis sugerem; o estúpido decreta ter descoberto aquilo que “o sistema” esconde. O primeiro hesita porque conhece as fronteiras do saber; o segundo avança porque ignora qualquer limite.
Na arena digital, essa audácia analfabeta é frequentemente celebrada como coragem.
A ignorância já foi motivo de vergonha. Não saber impunha o discreto desconforto que movia a busca pelo livro, pela consulta, pelo diálogo qualificado... Hoje, a recusa aos fatos pode operar como insígnia identitária.
Desconfiar da evidência é vendido como independência crítica. Hostilizar o saber técnico virou, em certos círculos, atestado de pertencimento. Chegamos ao ponto em que uma das expressões mais nobres do pensamento - o honesto “eu não sei” - soa quase subversiva.
Valter Hugo Mãe foi cirúrgico ao eleger a montanha.
Conhecer sempre foi uma subida íngreme: exige estudo, tolerância ao contraditório e o esforço monumental de reconhecer os próprios equívocos. Descer, por sua vez, exige apenas comprazer-se na gravidade.
O grande paradoxo do nosso tempo não é o obscurantismo pela escassez de dados, mas pelo excesso: carregamos o patrimônio intelectual da humanidade no bolso e desenhamos a engrenagem mais sofisticada da história para ignorá-lo com entusiasmo.
Agilulfo continua descendo. E o vale continua aplaudindo.
Jurandyr Bueno
Jornalista e especialista em Relações Governamentais e projetos para o Terceiro Setor