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Olhar 360

A vitória de Espriella

por Andrew Okamura Lima
Publicado em 24/06/2026 às 19:05Atualizado em 24/06/2026 às 19:06
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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A vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia representa mais do que uma simples alternância de poder. Ela reforça uma tendência que vem se consolidando em diversos países da América Latina: o fortalecimento de lideranças identificadas com pautas conservadoras. Advogado de 47 anos, Espriella derrotou o candidato Iván Cepeda, aliado do atual presidente Gustavo Petro, por uma pequena margem de votos.

Numa votação polarizada, como tem sido em todos os países da América Latina, Espriella passou a fazer parte de um grupo de presidentes eleitos, muito próximos ideologicamente de Donald Trump. Sua eleição soma-se às vitórias de Javier Milei, na Argentina; Nayib Bukele, em El Salvador; Santiago Peña, no Paraguai; entre outros.

Assim como uma boa parte dos políticos citados acima, Espriella se autodenominou um outsider da política, voltando a residir na Colômbia após passar anos nos Estados Unidos, onde é um dos financiadores do Partido Republicano.

Com uma candidatura independente das estruturas partidárias tradicionais e dos grandes grupos empresariais, Espriella utilizou essa independência para capitalizar um maior número de votos, inspirando-se em lideranças que adotaram estratégia parecida, como Jair Bolsonaro aqui no Brasil, Nayib Bukele e Javier Milei.

Em discurso semelhante ao de outros líderes dessa corrente política, afirmou: “Viemos para mudar a política para sempre; hoje é o jogo mais importante da história da Colômbia”. Em parte, sua vitória se deu pelo aumento da violência na Colômbia, que há anos sofre com o narcotráfico. Por isso, segundo ele, uma de suas primeiras medidas será pedir o auxílio dos Estados Unidos e de Israel para combater a guerrilha com bombardeios e pulverizações de plantações de cocaína.

O eixo central de sua campanha girou em torno da questão da segurança pública. Além do pedido de auxílio que irá fazer, o novo presidente colombiano é defensor do porte de armas, assim como da construção de mega presídios e do endurecimento das leis penais – esta última, uma tendência na América Latina.

No campo econômico, Espriella compartilha ideais neoliberais. Seu planejamento de governo prevê a redução de 40% da atuação do Estado, sendo defensor também da ideia das privatizações, especialmente no setor petrolífero.

Reconhecido por sua habilidade retórica, Espriella conquistou o eleitorado impondo mais uma derrota às forças de centro-esquerda e de esquerda da região. Atualmente, Brasil, Uruguai, Guiana e Suriname são alguns dos poucos países da região governados por forças de esquerda ou centro-esquerda.

Em sua rede social, Donald Trump comemorou a vitória de Espriella, com quem deve estabelecer uma relação extremamente amistosa, ao contrário do que vinha ocorrendo com o atual presidente Gustavo Petro.

Essa aproximação deve ser revertida em investimentos dos Estados Unidos na Colômbia, principalmente no campo militar – em inteligência e apoio operacional –, a fim de intensificar o combate contra o narcotráfico.

Ainda por meio de sua rede social, Trump afirmou que o Brasil será a “disputa mais importante do hemisfério” sendo o seu próximo “teste” na América Latina. Essa simples mensagem revela a importância que as eleições desse ano ganham no complexo jogo político latino-americano.

A vitória de Espriella reforça uma tendência que vem se consolidando em diferentes países da América Latina: o fortalecimento de lideranças identificadas com pautas conservadoras, segurança pública e liberalismo econômico. Embora a história política do continente demonstre que esses ciclos raramente são permanentes, o momento atual indica um evidente reposicionamento do eleitorado. Para as forças de centro-esquerda e a esquerda, o desafio não será apenas disputar eleições, mas compreender as transformações sociais e comunicacionais que têm redefinido o debate político na região.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo