A pergunta que Rio Preto não respondeu
Corrupção não nasce sozinha, ela é resultado. É o que sobra quando a ética vira negociável e interesse pessoal se disfarça de interesse público

Um texto que escrevi em 11 de junho de 2018 voltou a aparecer para mim essa semana, como uma lembrança trazida por uma rede social. Independentemente da data, me veio a certeza de que os problemas que eu apontava só ficaram mais próximos de nós.
Nesse post indicava algo que me incomodava desde as manifestações contra a corrupção que tinham tomado Rio Preto poucos anos antes, entre 2013 e 2016: multidão nas ruas contra Brasília, e no mesmo carro de som, político local de conduta duvidosa ocupando o palanque para ser aplaudido.
Bastava vestir a camisa certa para ser perdoado e ovacionado. Essa indignação seletiva cobrou seu preço. Ajudou a formar o quadro político que Rio Preto tem hoje, gente que aprendeu cedo que basta escolher o inimigo certo para ficar livre de explicação e usurpar o futuro da cidade sem pagar por isso.
O texto de 2018 falava sobre escravidão, sobre o voto feminino, sobre conquistas que hoje parecem óbvias, mas custaram décadas de disputa contra quem não queria abrir mão de privilégio. Claro que não é a mesma escala de sofrimento, nem a mesma luta. Mas é o mesmo mecanismo: privilégio resiste, sempre.
Falava também sobre corrupção, sobre um erro que continuamos cometendo: tratar o sintoma como se fosse a doença.
Combater corrupção é necessário. Mas corrupção não nasce sozinha, ela é resultado. É o que sobra quando a ética vira negociável e interesse pessoal se disfarça de interesse público, numa sociedade que aprendeu, cedo, que perder vantagem dói mais do que perder princípio.
Oito anos depois, em Rio Preto, aquele texto virou espelho. A gestão Cândido/Marcondes já enfrentou mais de um episódio assim em pouco mais de um ano. Nem todos terminaram em irregularidade comprovada: um, sobre uso de área pública em show, foi arquivado pelo MP por falta de indício de má-fé. Outro, contrato milionário da Educação sem chamamento público, só foi cancelado depois de audiência pública e pressão popular.
O que segue em aberto é o convênio com a Santa Casa de Casa Branca, quase R$ 12 milhões para exames de imagem, com pagamento antecipado antes da prestação do serviço, sob investigação de comissão da Câmara, MP e Tribunal de Contas, ainda sem conclusão.
O que esses episódios têm em comum não é prova de corrupção, é um hábito: contratar sem disputa aberta, e só corrigir depois que o caso ganha repercussão.
Não é exclusividade desta gestão, nem desta cidade. Mas é aqui que vivemos, é aqui que a conta chega. Essa seletividade não desapareceu, só mudou de forma. Hoje é forte contra a corrupção de partido adversário, morna diante da que acontece no gabinete ao lado. Rótulo substitui responsabilidade, como se pertencer a determinado grupo bastasse para anular o que foi feito.
A diferença entre 2018 e hoje não é de natureza, é de distância. O que antes parecia notícia de outro estado, hoje tem nome de secretário e número de contrato. Talvez esse seja o ponto mais incômodo do texto que reencontrei: corrupção nunca precisou de monstros, só de rotina, de contrato assinado sem disputa, de gente disposta a achar normal, desde que o time seja o seu.
Quem hoje relativiza, minimiza ou protege por afinidade política deveria se perguntar uma coisa simples: a fiscalização que exige é seletiva por conveniência, ou é convicção mesmo quando o alvo é aliado?
Rio Preto não muda estrutura com indignação pontual, que aparece só quando o adversário erra e some quando é a vez do aliado. Muda quando deixa de aceitar privilégio como normal, venha de onde vier, e cobra interesse público com a mesma constância, não importa quem está no poder.
Oito anos depois do texto de 2018, essa ainda é a pergunta que Rio Preto não respondeu. Enquanto não responder, o problema vai continuar trocando de nome e de gestão, mas sempre voltando bater na mesma porta.
Beto Braga
É empresário