A ignorância e a arrogância
Um evento sobre a saúde mental da mulher e o aborto, na chamada “Casa do Povo”, organizado por lideranças religiosas e políticas masculinas, com uma mesa composta só por homens

A ignorância, no sentido mais direto da palavra, significa não saber alguma coisa. A arrogância refere-se a um sentimento positivo exagerado sobre si mesmo de maneira global ou em relação a algum assunto específico.
Um ignorante pode não ser arrogante, mas todo arrogante é ignorante, mesmo em relação ao assunto que se sente exageradamente seguro. Ninguém que tenha um conhecimento realmente profundo e honesto de qualquer tema consegue ter um sentimento exagerado a respeito do seu conhecimento, porque o verdadeiro conhecimento profundo nos aproxima da visão da incompletude da nossa capacidade de compreender.
Há alguns anos, na época de um grande aumento do número de casos de contaminações com o vírus Zika e da terrível consequência de malformações cerebrais do feto das mulheres grávidas contaminadas, lembro-me de uma discussão a respeito da legalidade e da urgência do aborto nesses casos. Na mesa dessa discussão um pastor, um juiz, um médico, um padre. Nenhuma mulher. Em determinado momento da discussão o pastor pergunta se não seria interessante ouvirem uma mulher. Seria?
Fico em dúvida se a questão é de arrogância, ignorância ou pura má-fé. Uma arrogância, infelizmente, comum nos homens que consideram que por serem homens podem falar de qualquer assunto. Uma ignorância que acha que não há mulheres que possam falar sobre qualquer assunto, inclusive com diversos posicionamentos ou uma ideia que os nossos assuntos podem ser discutidos com tranquilidade por qualquer pessoa, com ou sem qualificação, com ou sem a nossa presença.
Pergunto aos homens se não viriam, no mínimo, com uma certa estranheza desrespeitosa, uma mesa composta exclusivamente por mulheres para uma discussão da saúde mental dos homens ou dos diversos tipos de exames de próstata ou do câncer de pênis ou de problemas de ereção. Lembrando que temos mulheres profissionais e pesquisadoras que poderiam tranquilamente falar sobre esses ou quaisquer outros assuntos.
O evento sobre o Zika vírus, infelizmente, não foi o único. Uma pena que dentre outras repetições, tenha acontecido agora, em 2026, na nossa cidade: um evento sobre a saúde mental da mulher e o aborto, na chamada “Casa do Povo”, organizado por lideranças religiosas e políticas masculinas, com uma mesa composta só por homens. Talvez tenha sido só uma questão de proteção da ideia que desejam sustentar, porque muitos dos argumentos habitualmente usados nesse tipo de falsa discussão, sem contraponto, não se sustentam para além do discurso religioso e do apelo emocional.
Uma pena que em um período em que o feminicídio tem aumentado, lideranças masculinas deem sua “colaboração” em formato de desrespeito, ignorância, arrogância ou, no mínimo, deselegância nas vésperas do mês de comemoração do Dia da Mulher. Considerando que a violência, em especial a de gênero, é um problema de toda a sociedade e uma defesa real da vida, dirijo-me aos homens, nossos parceiros e companheiros, líderes e não líderes: nós contamos, precisamos e esperamos mais de vocês.
Monica Abrantes Galindo
É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos
Mulheres na Política e CDINN -Coletivo