Olhar 360

A eleição na Hungria

A vitória da centro-direita na Hungria pode marcar uma inflexão no avanço da extrema-direita no mundo, em grande parte devido ao autoritarismo que essa corrente passou a defender

por Andrew Okamura Lima
Publicado há 11 horasAtualizado há 11 horas
Andrew Okamura Lima (Andrew Okamura Lima)
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No último domingo, 12, ocorreram na Hungria as eleições parlamentares, que elegeram todos os 199 membros da Assembleia Nacional. O resultado indicou a vitória incontestável do TISZA, partido de centro-direita que passou a contar com 138 cadeiras no parlamento – número que representa uma supermaioria e viabiliza emendas à Constituição –, derrotando o FIDESZ, partido de extrema-direita comandado pelo autocrata Viktor Orbán, que exerceu o poder nos últimos 16 anos.

Prontamente, as principais lideranças da União Europeia parabenizaram Péter Magyar – líder do TISZA e agora o novo primeiro-ministro – pela vitória. Em seu discurso, Magyar teve como pautas centrais a reaproximação da Hungria com a União Europeia e o combate à corrupção administrativa.

Magyar enfatizou a agenda extremamente conservadora do ex-primeiro-ministro Orbán, que, durante seu governo, reduziu a independência do Judiciário, controlou a mídia e alterou as regras eleitorais para se beneficiar. Relembrou, ainda, que, ao longo dos anos de seu antecessor no poder, os casos de corrupção na administração pública dispararam.

Muito próximo de Vladimir Putin, Viktor Orbán foi um dos fiéis escudeiros da Rússia durante o embargo da UE ao petróleo e o gás, em razão da invasão da Ucrânia. Entretanto, Orbán também se mostrou muito próximo do presidente norte-americano Donald Trump, que, na semana anterior às eleições na Hungria enviou o seu vice-presidente, J.D. Vance, para apoiar a candidatura do aliado.

Com essas alianças, Orbán se tornou um dos grandes ícones da direita radical mundial. O fracasso nas eleições húngaras acende um alerta para esse setor político, que vê seus “melhores” modelos fracassarem, por se mostrarem incapazes de compreender o processo do multilateralismo e da manutenção das instituições democráticas.

Com o aumento do descontentamento da população húngara, o ex-primeiro-ministro realizou uma campanha pouco consistente, em meio a diversas denúncias de abuso de poder, além de ter levado a Hungria a um isolamento econômico, especialmente, em relação ao bloco europeu, agravando a crise no país.

Seu discurso violento, característico dos líderes autocratas – especialmente contra os direitos LGBTQIAPN+, as universidades, as ONGs e os imigrantes –, ganhou destaque negativo e contribuiu para um recorde de votos nesta eleição, resultando na perda de 78 cadeiras de seu partido na Assembleia Nacional.

É nesse cenário que Magyar assumirá o país, com a missão de melhorar a frágil economia húngara, restabelecer a confiança do cidadão na estrutura democrática – abalada durante os anos de Orbán – e, em especial, reaproximar a Hungria da UE, para conseguir a liberação de recursos financeiros atualmente bloqueados devido à política de seu antecessor.

Entretanto, duas questões permanecem obscuras no novo governo: a primeira será a relação com a Ucrânia, uma vez que Magyar já declarou que o país foi vítima no conflito com a Rússia, mas se posicionou contra a ajuda militar aos ucranianos; a segunda será sua política de imigração, já que defende a manutenção das diretrizes adotadas por seu antecessor nesse campo.

A vitória da centro-direita na Hungria pode marcar uma inflexão no avanço da extrema-direita no mundo, em grande parte devido ao autoritarismo que essa corrente passou a defender, além do flagrante desrespeito ao sistema democrático e ao direito internacional.

Como diria Norberto Bobbio, a liberdade e o poder derivam do reconhecimento de alguns direitos fundamentais, inalienáveis e invioláveis. Portanto, qualquer violação a esses princípios pode levar a uma crise não apenas do sistema jurídico, mas também, do próprio meio de vida contemporâneo.

Andrew Okamura Lima

Historiador e filósofo