A elasticidade do tempo
Estamos diante de uma mudança silenciosa. Embora a idade continue avançando, os comportamentos já não seguem roteiros tradicionais. Os jovens cuidam do corpo pensando no futuro; os mais velhos aproveitam o presente com a liberdade proporcionada pela longevidade

Uma reportagem recente de um jornal carioca abordou um fenômeno contemporâneo: a percepção de que o tempo deixou de obedecer às regras tradicionais da idade. A cronologia permanece a mesma, mas a forma de viver cada fase da vida mudou.
Durante décadas, a juventude esteve ligada às madrugadas e aos excessos, enquanto a maturidade seguia rotinas previsíveis. Hoje, essa divisão perdeu força.
É comum encontrar jovens acordando cedo para correr, frequentar academias ou treinar para maratonas. A busca por desempenho físico e hábitos saudáveis tornou-se uma marca geracional. Relógios inteligentes monitoram passos, batimentos cardíacos e sono.
Ao mesmo tempo, muitos integrantes da geração 60 + vivem uma fase inédita. A aposentadoria já não significa recolhimento. Viajam, vão a shows, reencontram amigos e voltam para casa depois da meia-noite.
O contraste chama atenção. Enquanto muitos jovens acompanham métricas de saúde e bem-estar, sexagenários e septuagenários redescobrem o prazer de aceitar convites inesperados e explorar novos lugares.
Conheço essa realidade por meio da Cida, minha funcionária. Com agenda cheia e disposição admirável, ela desafia a ideia de que a idade determina o ritmo da vida.
Faz ginástica em um projeto em Potirendaba, participa de aulas de dança, vai a romarias e até frequenta cursos para aprender mais sobre o celular. Entre uma atividade e outra, ainda encontra tempo para viagens, encontros e comemorações. Costumo dizer que ela tem “rodinhas nos pés”.
Estamos diante de uma mudança silenciosa. Embora a idade continue avançando, os comportamentos já não seguem roteiros tradicionais. Os jovens cuidam do corpo pensando no futuro; os mais velhos aproveitam o presente com a liberdade proporcionada pela longevidade.
Aos 60, 70 ou 80 anos, muitas pessoas continuam sonhando, planejando, viajando e criando novas memórias. As horas seguem iguais para todos; o que mudou foi a maneira de aproveitá-las.
Essa pode ser a maior conquista da longevidade moderna: não apenas acrescentar anos à vida, mas devolver vida aos anos. A frase encontra respaldo em pessoas como Cida e tantos outros que seguem ativos, curiosos e engajados. Afinal, viver mais só faz sentido quando se vive melhor. E nisso, a elasticidade do tempo tem dado uma bela lição.
Regina Chueire
Médica, professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro/Funfarme.