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Olhar 360

A Argentina que o Brasil conhece bem

A arrogância argentina os faz achar que regras não valem para eles, que algumas pessoas valem menos que outras. As duas coisas nascem da mesma ideia: eu sou superior

por Beto Braga
Publicado em 28/07/2026 às 20:58Atualizado em 28/07/2026 às 20:59
Beto Braga (Divulgação)
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Beto Braga (Divulgação)
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Rivalidade esportiva é saudável. Times como o Brasil e a Argentina se obrigam a evoluir um por causa do outro, e isso vale pra política também: uma esquerda bem construída força a direita a se organizar melhor, e vice-versa. O problema é quando a rivalidade some e sobra só o desconforto de reconhecer o outro. Foi o que aconteceu nesta Copa, do início ao fim.

A vitória sobre o Egito, de virada, veio cercada de decisões de arbitragem que a própria federação egípcia contestou à Fifa, ecoando dúvidas antigas como o 6 a 0 sobre o Peru em 1978. Em 2022, com Messi, ninguém questionou nada, a França dignificou aquela final. Desta vez, o questionamento voltou, e a resposta argentina piorou tudo.

Vale a ressalva, pra não cair em hipocrisia: é fácil cobrar isonomia da arbitragem lá fora e comemorar o mesmo tipo de favor quando é o time do coração que se beneficia aqui dentro. Coerência vale pros dois lados, ou não vale. No domingo, a Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação e ficou bicampeã. A Argentina teve seu quarto vice em sete finais.

O problema não foi perder, foi como perdeu. Paredes recebeu vermelho por confrontar espanhóis já com o jogo encerrado, Molina discutiu com o capitão Rodri, e a delegação inteira virou as costas durante a cerimônia da taça. A Fifa abriu investigação. Jornais de Itália, Inglaterra e da própria Espanha chamaram o episódio de vergonhoso, e a imprensa francesa perguntou se a Argentina virou a seleção mais odiada do mundo. Isso emenda com o que já vinha acontecendo fora de campo.

A Al Jazeera registrou torcedores egípcios e cabo-verdianos denunciando argentinos jogando cerveja neles a cada gol. O streamer IShowSpeed foi mandado "chorar no zoológico" e recebeu gestos de macaco de argentinos em Miami. Shannon Sharpe chamou o país de "santuário nazista", lembrando que a Argentina recebeu fugitivos do nazismo depois da guerra, sob Perón.

Aqui no Brasil, a gente já sabe do que se trata. Neste ano, a advogada argentina Agostina Páez foi presa no Rio depois de chamar um funcionário de bar em Ipanema de "mono", macaco em espanhol. Menos de 24 horas depois de pisar de volta em solo argentino, o próprio pai dela foi filmado fazendo o mesmo gesto num bar. Isso não é o povo argentino inteiro. É um grupo que se enxerga como europeus transplantados pra América do Sul, superior aos vizinhos "misturados".

Racismo lá nem é crime, como é aqui desde 2023. O fim de semana trouxe outro capítulo, esse fora do campo de verdade. Milei veio ao Brasil discursar na convenção que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência, chamou Lula de "ladrão" e "presidiário", chamou Moraes de "lixo careca" e falou em "risco Lula". O PT classificou como ingerência indevida de um chefe de Estado contra os Poderes de outro país, e tem razão.

Vale lembrar: há um ano, Lula visitou Cristina Kirchner em prisão domiciliar em Buenos Aires, gesto lido pelo próprio governo argentino como intromissão na Justiça local. Meter o bedelho na política interna do vizinho virou hábito dos dois lados. Escrevo tudo isso sem nenhum prazer. Tenho amigos argentinos, gosto do futebol deles, sempre respeitei a rivalidade.

Mas rivalidade esportiva é uma coisa, racismo filmado e desrespeito institucional são outra. O mundo está só agora enxergando, através de uma Copa fora da América do Sul, o que o brasileiro sente há décadas nos seus estádios, nas suas ruas, e também quando pisa em solo argentino. A arrogância argentina os faz achar que regras não valem para eles, achar que algumas pessoas valem menos que outras. As duas coisas nascem da mesma ideia: eu sou superior. Essa característica sempre esteve lá, dentro de campo e fora dele. O que mudou foi o público: agora tem gente em Miami, em Nova Jersey, na Europa, Africa e Ásia vendo de perto o que o Brasil aprendeu a engolir há décadas.

Beto Braga

É empresário