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Olhar 360

A África no centro

Por que a forma que escolhemos divulgar aumenta o hemisfério norte e distorce diminuindo o hemisfério sul?

por Monica Abrantes Galindo
Publicado em 08/08/2026 às 17:55Atualizado em 08/08/2026 às 18:04
Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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Monica Abrantes Galindo (Divulgação)
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O mapa-múndi mais comumente conhecido entre nós, presente em muitos materiais didáticos, é a projeção de Mercator. Criada no século XVI pelo cartógrafo Gerardus Mercator, ajudou os marinheiros a traçarem rotas em linha reta, mantendo os ângulos corretos, mas sacrificando a proporção real das áreas dos territórios ali representados.

Nessa projeção, territórios mais próximos aos polos - como América do Norte e Europa, parecem maiores do que territórios mais próximos da linha do Equador - como a África e a América do Sul. Essa distorção não nos permite perceber, por exemplo, que a área da África é aproximadamente quatro vezes maior do que a do Brasil, três vezes maior do que a da Europa e 14 vezes maior do que a da Groenlândia.

As críticas a essa projeção não são novas, mas a campanha internacional “Correct The Map” (Corrija o Mapa), de 2024, reacendeu essa discussão, propondo, dentre outros pontos, a utilização da projeção “Equal Earth” como padrão. Criada em 2018, ela reflete com melhor precisão as áreas e proporções entre os territórios.

A União Africana, que apoia essa proposta, tem se empenhado em promover uma visão mais correta da África, ou melhor, no caso dessa campanha, uma visão mais correta em relação às proporções das áreas de todos os países e continentes mundiais.

Não existe uma forma perfeita de representação do globo terrestre de maneira plana, justamente porque é um globo. A pergunta que precisamos fazer é: por que a forma que escolhemos divulgar aumenta o hemisfério norte e distorce diminuindo o hemisfério sul? Por que continuamos utilizando um tipo de mapa que é útil para a navegação, mas distorce de maneira não neutra a imagem que temos do mundo?

A UNESP tem um Núcleo de Estudos Avançados - NEAv. Coordenado pelo Professor Dr. Eduardo Columbari, o Núcleo se propõe a ser um laboratório interdisciplinar, orientado para questões de relevância social e estratégica. Nesta última semana, uma palestra, já disponível na Internet, intitulada “África no Centro da História Mundial: Conhecimento, Cooperação e Descolonização”, proferida pelo Professor Dr. Valter Silvério entrou na programação do Núcleo.

Alguns aspectos reveladores da centralidade africana no passado, no presente e principalmente, no futuro foram discutidos por Silvério: a explosão demográfica jovem africana, a abundância na África de minerais essenciais para a transição energética, o aumento do peso diplomático da África em instâncias como o G20 e uma crescente autonomia política frente a um mundo multipolar.

Trazer a África para uma discussão avançada e multidisciplinar; ampliar nosso conhecimento do continente africano para além dos safáris e das criancinhas doentes - que, obviamente precisam ser ajudadas, sem que se esqueça dos movimentos colonizadores que as colocaram nessa situação vulnerável; corrigir as imagens equivocadas que temos do continente são ações que colocam a África no centro, ou seja, colocam o continente africano no tamanho correto e no lugar certo.

Monica Abrantes Galindo

É vice-diretora da UNESP de Rio Preto, professora, participante dos coletivos

Mulheres na Política e CDINN -Coletivo