Obra sim, desmate não
Rio Preto precisa de coragem e criatividade para levar adiante a obra na avenida Murchid. O que não pode é transformar uma solução em desastre ambiental

A avenida Murchid Homsi representa um grande desafio de infraestrutura urbana de Rio Preto. Há décadas, a região convive com alagamentos e transtornos que se repetem. O problema atravessou diferentes administrações municipais sem que uma solução definitiva saísse do papel. Chegou a hora de enfrentar essa realidade sem medo, com determinação e criatividade.
A cidade não pode continuar adiando uma intervenção necessária apenas porque ela envolve decisões difíceis. Obras estruturais raramente são simples. Exigem recursos elevados, planejamento técnico e coragem política para fazer aquilo que sucessivos governos preferiram postergar. Nesse aspecto, o projeto da Prefeitura de drenagem e revitalização da avenida, ao custo de R$ 29 milhões, merece ser levado adiante, sob a perspectiva da construção de um parque linear moderno, seguro e acessível.
Mas existe um limite que não pode ser ultrapassado. A previsão de derrubar 943 das 1.323 árvores na avenida que é modelo de arborização em Rio Preto é simplesmente inaceitável. A Murchid Homsi não é apenas um corredor viário. É um patrimônio ambiental, um espaço que oferece sombra, conforto térmico, qualidade do ar e abrigo para a biodiversidade urbana. Destruir quase toda essa cobertura vegetal seria impor à cidade um custo ambiental desproporcional.
Não há incompatibilidade entre engenharia e preservação. Ao contrário. A engenharia moderna existe justamente para encontrar soluções capazes de conciliar infraestrutura, segurança, funcionalidade e respeito ao meio ambiente. Se o projeto exige a eliminação de centenas de árvores, então ele precisa ser revisto até que esse impacto seja reduzido ao mínimo indispensável.
É evidente que algumas supressões poderão ser inevitáveis. Nenhuma grande obra ocorre sem algum grau de intervenção. Porém, inevitável jamais pode ser confundido com conveniente. Cada árvore preservada representa um ganho permanente para a cidade. Cada exemplar poupado demonstra que houve compromisso com o interesse coletivo e com as futuras gerações.
Também é indispensável que todo o processo ocorra com absoluta transparência, estudos técnicos amplamente divulgados, fiscalização rigorosa e medidas de mitigação compatíveis com a importância ambiental da área. Compensação ambiental é obrigação legal, mas não substitui árvores adultas que levam décadas para cumprir plenamente sua função ecológica.
Rio Preto precisa dessa obra. Precisa resolver um problema histórico que afeta moradores, comerciantes e motoristas há muito tempo. O que não precisa e não se aceita é transformar uma solução de drenagem em um desastre ambiental. A coragem para realizar a intervenção deve ser exatamente a mesma coragem para exigir alterações no projeto sempre que elas significarem salvar árvores. Esse é o verdadeiro desafio.