RADAR ECONÔMICO

O Turismo sob a Sombra do Conflito

por Célia Gomes
Publicado há 1 horaAtualizado há 1 hora
Célia Gomes (Divulgação)
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A história da humanidade é marcada por desordens recorrentes na esfera econômica, social, saúde, religiosa, política e eventos geológicos extremos. Se, na Pré-História os problemas eram decorrentes da dificuldade em coletar alimentos para a sobrevivência, isto foi superado com o domínio do fogo e a invenção da roda. Entretanto, de modo algum as contendas acabaram. Os conflitos ainda permanecem em diversos pontos do planeta, resultante do interesse pela posse territorial principalmente das localidades com abundancia em recursos naturais.

As necessidades do ser humano até próximo da Idade Média, era a de sobrevivência. Nenhuma outra necessidade, além da biológica, era reconhecida ou identificada. O marco das mudanças deve se principalmente a Revolução Industrial que teve início na Inglaterra por volta de 1760, estendendo-se até meados de 1850. Marcado pela transição da produção artesanal para a maquinofatura, o período teve a máquina a vapor e o uso do carvão como principais inovações tecnológicas no setor têxtil e traz para a sociedade melhores condições de vida. Rapidamente a economia se transformou em ciência social aplicada com derivações no Bem-Estar Social e o aparecimento do lazer como necessidade de reparação do corpo físico e mental.

O período entre 1918 a 1939 marca um curto intervalo entre as duas guerras mundiais e as viagens a lazer ficaram comprometidas. A era próspera das ferrovias foi interrompida abruptamente pela Primeira Guerra Mundial em 1914.Impulsionado pela guerra, o notável desenvolvimento técnico do transporte aéreo foi muito útil ao longo da história para outros fins, inclusive o turismo se beneficiou. Após 1918, veteranos e famílias enlutadas começaram a visitar as trincheiras da França e da Bélgica. A partir de 1945 onde se estabeleceu a paz entre as nações, locais como a Normandia, em solo francês, e os campos de concentração na Polônia, tornaram-se marcos de reflexão. Esses destinos se tornarem espaços de educação e do "turismo sombrio" (dark tourism), onde a preservação da dor serve como um lembrete para que a história não se repita.

Durante a Primeira (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o turismo como atividade econômica praticamente deixou de existir na Europa e em parte da Ásia. Hotéis de luxo foram convertidos em hospitais militares ou quartéis-generais, e a infraestrutura de transporte, ferrovias e portos foi priorizada para o esforço bélico. O turismo se desenvolve exatamente neste período onde as estradas são pavimentadas, os trens e os cruzeiros marítimo mais velozes. A mudança nos meios de transportes condicionou este crescimento, já que o transporte é um dos principais serviços na atividade turística que consiste em sair de casa para um novo destino. No entanto, o turismo é uma inovação recente e se desenvolve com o crescimento da população e o aumento da riqueza sobretudo a partir do século XVIII.

Entretanto, o pós-guerra registra a decolagem do turismo representado pela revolução na tecnologia, mudanças e desenvolvimento industrial em massa e aceleração de riqueza. Nesse cenário o turismo provou ser uma demanda altamente elástica. Após a entrada de renda, depois de todas as necessidades básicas serem atendidas, a renda extra é gasta com viagens e demais serviços.

As guerras contemporâneas como o conflito na Ucrânia ou as tensões no Oriente Médio influenciam o turismo de forma instantânea e digital. A conectividade permite que o mundo acompanhe em tempo real a destruição de patrimônios históricos, como ocorreu em Palmira, na Síria (Patrimônio Mundial da UNESCO). Atualmente, a influência nas viagens é sentida através da segurança percebida. Um conflito regional não afeta apenas o país em guerra, mas gera um efeito dominó em toda

a região. Países vizinhos sofrem quedas drásticas nas reservas devido ao medo do transbordamento da violência ou do fechamento súbito de espaços aéreos.

O fenômeno do deslocamento humano sempre foi intrinsecamente ligado ao estado de paz e estabilidade das nações. Quando falamos de "Turismo em tempo de guerra", entramos em um campo onde a liberdade de ir e vir colide frontalmente com a geopolítica e a sobrevivência. Historicamente, as guerras não apenas interrompem fluxos turísticos, mas redesenham permanentemente o mapa do lazer e da memória global.

A reconstrução de um destino após a guerra é, talvez, o sinal mais forte de que a vida e a inquietação humana são resilientes.

Célia Gomes

É membro do Conselho Municipal de Turismo (Comtur)